sexta-feira, 26 de novembro de 2010

P24 - In Memoriam: António Vicente Lemos, falecido em Inglaterra em 1998

António Vicente Lemos, um camarada que nos deixou em 1998

1. Em 14 de Novembro de 2010, Carlos Lemos deixou esta mensagem do site Rumo a Fulacunda:

ola meu nome e carlos lemos,
pois gostaria de saber mais sobre o meu falecido pai que lutou na guine, 1970=1972 cart 2732 seu nome (ANTONIO VICENTE LEMOS)
OBRIGADO



2. Na mesma data foi enviada resposta a Carlos Lemos

Caro Carlos
O seu pai foi na verdade nosso camarada na CART 2732. Contudo, porque 40 anos é muito tempo, não me lembro, infelizmente, por não fazer parte do meu Pelotão.
Gostaria de saber quando faleceu o seu pai e se se encontrava na Madeira ou emigrado.
Mande-me uma foto dele da altura em que esteve connosco na Guiné.
Se me der resposta, posso fazer um apelo no Blogue da nossa Companhia para encontrar algum camarada de Pelotão.
O meu endereço ao seu dispor é carlos.vinhal@gmail.com

Receba um abraço e as minhas condolências pela morte de seu pai.
Carlos Vinhal


3. Em 25 de Novembro, recebemos esta mensagem e a foto do nosso camarada

ola sr carlos
espero que venha a receber esta foto pois e uma de poucas que existem,
meu pai e da madeira mas foi para a venezuela nos anos 1981, pois so regressou em 1992 a madeira de novo, e me encontrava na africa do sul
entao nao o vi por muitos anos e acabou de falecer na englaterra 1998, pois nunca tive a oportunidade de ve-lo vivo, agora vivo na englaterra com a minha familia e gostaria de conhecer melhor o meu pai, o mundo da tantas voltas que nos as vezes perdemos nele, e por vezes ate esquecemos as pessoas a quem amamos...
espero que conheca o meu pai
aguardo a sua resposta
carlos lemos



4. Comentário

Pede-se aos camaradas que tenham convivido mais de perto com o Lemos, o favor de nos enviarem textos alusivos para os publicarmos e/ou fazermos chegar a seu filho Carlos.
Pena que estejamos a falar de um camarada que já não está entre nós.

Ao Carlos Lemos, apresentamos nossos sentidos pêsames.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

P23 - As nossas datas (1): Faz hoje 40 anos que tivemos o nosso primeiro morto

No dia 6 de Outubro de 1970, logo pela manhã, morreu o nosso Alf Mil Art.ª José Armando Santos do Couto.

Na missão de reconhecimento do local de onde, no dia anterior, o quartel e povoação de Mansabá tinham sido atacados, os 3.º e 4.º Grupos de Combate da CART 2732, comandados respectivamente pelos Alf Mil Bento e Couto, detectaram algumas minas deixadas pelo IN.

Como o Alf Couto tinha a Especialidade de Minas e Armadilhas, no cumprimento do seu dever, tentou neutralizar uma delas. Algo correu mal, porque ainda chamou pelo seu camarada Bento, no sentido de, por ventura, lhe dar qualquer ajuda. Este nem tempo teve de chegar perto, porque se deu a explosão e a consequente morte do nosso camarada Couto.

Do Alf Couto, os militares do 4.º Pelotão melhor que ninguém poderão falar, mas do eu conheci dele, porque frequentámos juntos o XXXIII Curso de Minas e Armadilhas na Escola Prática de Engenharia de Tancos, era um homem sem jeito para a vida militar, preferindo o convívio dos militares de patente mais baixa, entre os quais se sentiria mais à vontade. Era frequentador assíduo do Bar dos Praças do Casal do Pote, único lugar onde se podia jogar matraquilhos.

Na Guiné era frequente vê-lo junto dos seus militares nos diversos postos de vigilância do aquartelamento.

Paz à sua alma. Honremos a sua memória.

11ABR70 - 3.º Pelotão da CART 2732, comandado pelo Fur Mil Nunes, desfila durante a cerimónia de homenagem à memória do Alf Mil Couto, vítima mortal do rebentamento de uma mina AP em 06OUT70, no Alto de Bissorã.

11OUT70 - Cerimónia militar e religiosa de homenagem à memória do malogrado Alf Mil José Armando Santos do Couto, que contou com a presença da autoridade civil, Homens Grandes da Tabanca e população em geral.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

P22 - António Barreto dá uma chicotada psicológica aos mais Altos Representantes de Portugal

Por Inácio Silva

ANTÓNIO BARRETO*, intelectual e cientista social, autor dos documentários para a RTP, “Um retrato social”, realizados em 2006, encarna, publicamente, em frente dos mais altos responsáveis do país, o sentimento e a mágoa dos ex-combatentes.

Confesso que não sabia que António Barreto era o responsável pela Comissão das Comemorações do 10 de Junho de 2010, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, mas foi com uma agradável surpresa que ouvi o seu discurso, quase todo virado para os ex-combatentes, preocupado em salientar o facto de não haver vários tipos de combatentes, como alguns pretendem. Existe, apenas, um tipo de combatente: aquele que em nome do seu país, serviu ou serve, em território português, ou no estrangeiro, por mandato do Estado Português. Entenda-se que as ex-colónias, hoje países estrangeiros, eram, na altura da guerra colonial, consideradas terras sob administração portuguesa...

António Barreto proferiu, no meu ponto de vista, o discurso que os ex-combatentes esperavam ouvir, há mais de 40 anos, e que nenhum político ousou dizer, talvez com o receio de ser conotado com uma ou outra força política, por concordância ou discordância da manutenção das guerras do ultramar. O desassombro e a inspiração de António Barreto merece a nossa vénia e o nosso obrigado. Ele soube definir, com tamanha clareza de espírito e evidência o que levou tantos milhares de jovens a deixar as suas terras e as suas famílias, os seus amigos, os seus empregos, para serem levados, sem vontade própria, para terras que desconheciam, sem um “bilhete de passagem” que lhes garantisse o regresso.

A tal dívida de gratidão, tantas vezes proferida por milhares de ex-combatentes e que ventos hostis nunca permitiram que chegasse aos nossos governantes, foi – graças ao António Barreto - insuflada, à força, um a um, nos ouvidos dos governantes ali presentes. A partir de hoje, nenhum deles poderá dizer que desconhece existir uma dívida de gratidão e que ela terá que ser paga, com ou sem existência de crise.

É certo que o País já possui legislação sobre algumas questões que afectavam e afectam os ex-combatentes, relacionadas, justamente, com as situações mais gritantes de injustiça social, tais como, o apoio aos deficientes e aos afectados pelo stress pós traumático, mas no que diz respeito às reformas, muito, há, ainda, que fazer.

António Barreto afirmou que "Portugal não trata bem os seus antigos combatentes, sobreviventes, feridos ou mortos”, reforçando que o “esquecimento e a indiferença são superiores”, sobretudo "por omissão do Estado".

Barreto acusa o Estado de ser pouco "explícito no cumprimento desse dever", avisando que está na altura de "eliminar as diferenças entre bons e maus soldados, entre veteranos de nome e veteranos anónimos, entre recordados e esquecidos".

Um antigo combatente não pode ser tratado de "colonialista", "fascista" ou "revolucionário", mas simplesmente "soldado português",.

O dia 10 de Junho de 2010 fica marcado, também, por ter sido a primeira vez que os antigos combatentes desfilaram na cerimónia militar oficial do Dia de Portugal.

Como ex-combatente, sinto-me profundamente grato pelas palavras de António Barreto, que me tocaram o coração. Um bem-haja.

Inácio Silva
10JUN10

(*) Link para o discurso de António Barreto: http://o-jacaranda.blogspot.com/2010/06/dia-de-portugal-de-camoes-e-das.html

domingo, 25 de abril de 2010

P20 - A CART 2732 na Comunicação Social (1): Notícia inserta no "JM.online" do dia 25 de Abril de 2010



Ex-combatentes recordam tempos difíceis passados em ambientes hostis em África

A união que brotou da guerra


Hoje, 25 de Abril, dia em que se assinala o 36.º aniversário da Revolução do Cravos, o Jornal da Madeira, foi procurar saber o que estes homens pensam desta data, as memórias que ficaram desse tempo, a justificação para a guerra.

José Manuel Vieira é madeirense. Fez parte da Companhia 2732 que partiu para a Guiné em Abril de 1970. Há 12 anos a esta parte que, juntamente, com um dos seus colegas de Companhia, António Vieira promove um convívio anual dos ex-combatentes da 2732.
O encontro reúne, pelo menos, 30 madeirenses, sempre entre Março e Abril, data comemorativa da ida da Companhia para a Guiné. No Natal voltam a reunir.
José Manuel Vieira tem gosto em que estes convívios prossigam. No passado dia 13 de Abril, fez 40 anos que esta Companhia partiu para a Guiné, na altura, a maioria tinha entre os 21 e os 22 anos.
Foram incorporados em Outubro de 1969, fizeram a recruta no Funchal tendo partido a 13 de Abril de 1970 e regressado a meados de Março de 1972.

No convívio deste ano, pela primeira vez vieram à Madeira camaradas do continente português, que fizeram parte da Companhia. José Manuel Vieira reitera que, depois do temporal, as pessoas estavam receosas em vir à Região.
Passada uma semana e meia, um dos organizadores dos encontros em Lisboa contactou-o e disse-lhe que havia conseguido convencer que a ilha estava recuerada. E assim se realizou o convívio.


Cada qual tem a sua história

José Manuel Vieira afirma que em relação aos ex-combatentes do Ultramar, cada qual tem a sua história, há histórias parecidas, umas com um final feliz, outras nem por isso, hove mortos por acidente.

Recordou, a propósito, que ao nível da Companhia 2732, houve o caso de um rapaz que nem ia ao mato, não fazia patrulhamentos, fazia apenas serviço no quartel, na parte da cozinha e vigilância nocturna.

Certo dia um dos colegas ia colocá-lo no posto de vigilância, iam de carro e este quis passar de uma cadeira para a outra. Nesse preciso momento, o carro deu um salto porque havia uma cova na estrada e o soldado caiu ao chão.
O chão era de terra batida porque quando chovia e com o rodar dos carrosabriam-se valas. O sol abrasador secava rapidamente, o que fazia com que a terra ficasse dura como pedra. Depois da queda, o soldado foi encaminhado para o hospital e acabou por falecer com uma fractura de crânio.

José Manuel Vieira recordou outros acidentes resultantes de brincadeiras com armas e granadas. Houve um dia um dos colegas que andou a brincar ao Rambo com uma granada sem cavilha, que rebentou e feriu uma série de pessoas, Havia, ainda, ataques a colunas militares, enumerou.
[...]

(Élias Freitas)
__________

Nota de CV:

Com a devida vénia ao Jornal da Madeira

terça-feira, 20 de abril de 2010

P19 - 40.º Aniversário da ida da CART 2732 para a Guiné (6): O Encontro aconteceu. Viveram-se horas de alegria e de convívio

Fotos (da autoria de Inácio Silva)

Conforme foi anunciado, alguns ex-camaradas naturais e/ou residentes no Continente, encontraram-se com um grupo alargado de ex-camaradas da nossa Companhia, residentes na Madeira, com o intuito de comemorarmos o 40.º aniversário da nossa partida para a Guiné.
A deslocação para o Funchal foi feita aleatoriamente, optando, cada um, pela data mais conveniente. O mesmo aconteceu em relação ao regresso. Os camaradas organizadores, que fizeram um excelente trabalho, programaram, com todo o pormenor, as diversas etapas do nosso encontro. Inclusivé, não subestimaram a recepção no aeroporto e o inestimável serviço de transporte do aeroporto para o Funchal, deixando-nos à porta do hotel. O transporte do Funchal ao aeroporto, mesmo em dias diferenciados, foi também assegurado aos continentais pelos camaradas naturais da Madeira. Registamos com muito agrado e simpatia esta louvável iniciativa que, aliás, foi distribuída, um pouco, por cada um dos membros da organização.

Este evento permitiu, como seria expectável, juntar alguns familiares mais próximos dos ex-combatentes, designadamente, com a inclusão do elemento feminino, atribuindo um colorido mais íntimo e harmonioso.
No dia 10 de Abril, logo pelas 10H00, fomos esperar um autocarro que nos levaria até junto do grupo dos ex-camaradas madeirenses, cujas caras - a maior parte delas - não eram vistas, há quarenta anos.

Passado o primeiro impacto, com a dispensa de um relativo esforço de reactivação da memória visual e auditiva, foi possível estabelecer, nuns casos, mais rapidamente do que noutros, a ligação com o passado, já longínquo, e de relembrarmos certos episódios, vividos no colectivo, que, jamais, serão esquecidos.

Já dentro do autocarro, a curiosidade mútua era evidente e a pergunta, "quem é aquele?", surgia amiúde.

Houve algumas situações, algo caricatas, de alguns camaradas dizerem cara-a-cara:

- "desculpa-me, mas eu não me lembro de ti...", dizendo, logo, o outro:

- "então, não te lembras... disto e... daquilo?

- Sim disso, eu lembro-me bem mas da tua cara, não...!

Mas, a pouco e pouco, a sã camaradagem sobrepôs-se as todas as dúvidas e as conversas foram sendo feitas com a maior cordialidade...

O autocarro dirigiu-se, então, para as antigas instalações do BAG-2 (Bateria de Artilharia de Guarnição), transformado em GAG-2 (Grupo de Artilharia de Guarnição) para se tornar numa Unidade Mobilizadora, onde a nossa Companhia recebeu instrução militar e de onde partiu, rumo à Guiné*.

O GAG-2 foi entretanto transformado em Unidade de Apoio ao Comando da Zona Militar da Madeira.

Fomos recebidos pelo Oficial de Dia, senhor Capitão Urbano Correia em representação do Comandante que não pôde estar presente devido a ter que participar numa cerimónia que estava a decorrer no Funchal, alusiva ao Dia do Combatente.

O Oficial de Dia deu-nos as boas-vindas, num tom muito cordial e proporcionou-nos uma visita àquelas que foram as nossas instalações, algumas delas inexistentes e outras submetidas ao longo do tempo a obras de beneficiação.

Nesta parada se fez muita Ordem Unida, Ginástica e Aplicação Militar. Aqui recebemos o nosso Guião que nos acompanhou na Guiné e que agora parece estar desaparecido.

À esquerda a antiga caserna dos Recrutas.

Fomos conduzidos ao monte mais alto da guarnição, onde se encontram instaladas algumas peças de artilharia pesada, local que nos proporcionou uma excelente vista sobre o Funchal e onde nos detivemos, algum tempo, em amena cavaqueira.

Ex-combatentes e respectivos familiares a caminho do monte onde se encontram as peças de artilharia anti-aérea.

Uma das anti-aéreas apontando simbolicamente o céu, hoje verdadeiras peças de museu.

Descemos para a zona da parada, sendo, já, acompanhados pelo Comandante da Unidade, senhor Tenente Coronel Rui Manuel Sequeira de Seiça que nos deu as boas vindas, de uma forma muito efusiva, manifestando o seu apreço pela nossa presença, salientando o facto de ser pouco comum, os ex-combatentes regressarem às unidades que não lhes foram muito "simpáticas". Não deixou, também, de salientar a presença do elemento feminino, chamando a atenção para a importância da mulher na participação, com o homem, nas questões relacionadas com os militares.

Um tema que nos mereceu algum reparo foi o facto do GAG-2, em tempos, ter erigido um pequeno monumento em memória dos que dali partiram para a Guerra do Ultramar e dos que, ao serviço da Pátria morreram, que por questões relacionadas com a construção da Via Rápida, que liga o Funchal à Ribeira Brava, foi destruído, não tendo sido, depois, reerguido.

Memorial fotografado por Carlos Vinhal em 1985, que entretanto foi destruído.

Um dos elementos da CART 2732 pediu a palavra para reiterar, na presença de todos, aquilo que alguns já tinham feito chegar ao Comandante, em conversa privada... Agradecendo a forma cordial e amiga como fomos recebidos, revelou uma certa mágoa pelo facto daquela Unidade não ter uma referência aos ex-militares que, dela, partiram para o Ultramar, deixando um repto para que o seu Comandante diligenciasse no sentido de não deixar caír no esquecimento um episódio marcante vivido, conjuntamente, pelo GAG-2 e pelos ex-combatentes, ali presentes.

O Ten Cor Rui Seiça, Comandante da Unidade usou, de seguida, da palavra, para informar, solenemente, que assumia o compromisso e se iria empenhar no sentido de voltar a reerguer o referido monumento, deixando, todos, muito satisfeitos. Fazemos votos para que esse desiderato seja alcançado para que, numa próxima visita à Madeira e à nossa Unidade, possamos prestar a nossa profunda homenagem aos que já não voltaram connosco.

Parte da formatura, vendo-se à esquerda, de camuflado, o senhor Cap Urbano Correia e, com a farda n.º 1, o senhor Ten Cor Rui Seiça.

O Comandante da Unidade dirige palavras sentidas de reconhecimento às esposas presentes.

Saímos do quartel já perto das 13H00, sendo conduzidos ao local onde a Madeira construíu uma escultura e um pequeno edifício, dentro do qual estão gravados, em metal, os nomes dos madeirenses falecidos em campanha na guerra do ultramar.

Placa que assinala o local do Memorial.

Figura escultórica que encima o edifício, quanto a nós envergonhado, onde estão inscritos os nomes dos militares madeirenses tombados em campanha nos três Teatros de Operações. Por que estão estes nomes escondidos nesta espécie de meia-cave?

Como o estômago já reclamava, fomos, de imediato, para o restaurante que nos iria acolher para o almoço.

Este, decorreu tranquilamente, em formato self-service, podendo, cada um usufruir da variedade de produtos que foram colocados à nossa disposição, sendo, na generalidade, do nosso agrado.

Por fim, o camarada Pedro Reis, à sua maneira, surpreendeu-nos com a distribuição individual duma placa alusiva ao encontro.

Para rematar o final do encontro, foi fatiado o bolo alusivo à efeméride, decorado com os símbolos do nosso blogue, o que muito nos lisonjeou.

Depois, foi o dispersar, indo cada um para onde lhe apeteceu... não esquecendo, contudo, os bons momentos passados e que serão recordados com saudade.

Ficou a promessa de que se iria comemorar o 40.º aniversário do regresso, de novo no Funchal em 2012.

(*) Vd. Página do Exército em http://www.exercito.pt/sites/CmdZMM/Actividades/Paginas/6044.aspx