terça-feira, 10 de setembro de 2019

P67 - In Memoriam: Falecimento, no mês de Agosto, do nosso amigo e camarada de armas Manuel António Casal

A notícia chegou ontem abruptamente ao meu conhecimento por intermédio do Francisco Baptista, comandante do 4.º Pelotão, que tentou contactar o Casal. Atendeu-o a esposa que lhe deu a notícia do triste desenlace, ocorrido há sensivelmente três semanas.

Eu tinha contactado telefonicamente o Casal por alturas do Natal, como fazia habitualmente, tendo ele referido que tinha sido submetido a uma intervenção cirúrgica. Como me disse que o pior já tinha passado, sinceramente não dei muita importância à situação. Longe de imaginar que afinal a coisa era muito complicada.

A sua esposa, filhas, netos e demais familiares, aqui ficam as nossas condolências.

O Casal era mesmo um bom homem, respeitador e cordial. Comandou a nossa CART nos momentos mais complicados sem virar a cara à luta e à responsabilidade que lhe caía, a cada passo, sobre os ombros. Se bem me lembro, tivemos 5 capitães como comandantes de Companhia, sendo que nos intervalos era o Casal que assumia o comando, disposto para o que desse e viesse.

Aqui fica a nossa homenagem póstuma com algumas fotos que o recordam:>

Cais do Funchal, 13 de Abril de 1970 - Desfile da CART 2732 antes de embarcar no navio Ana Mafalda com destino à Guiné. À direita da foto o Alferes Manuel Casal que comandava a Companhia.

O Alf Mil Manuel Casal, ao centro, junto do Furriel Enfermeiro Luís Marques

Quartel de Mansabá - Messe de Oficiais - Abril de 1971 - Na festa de aniversário do Cap Mil Jorge Picado. Manuel Casal, sentado à esquerda da foto.

Arruda dos Vinhos, 2009 - Manuel Casal no encontro do pessoal da CART 2732

Em 2010 - Manuel Casal no ex-GAG 2 - S. Martinho - Funchal - Daqui saiu em 1970 a CART 2732, comandada por ele, com destino à Guiné.

Minde, 2018 - Encontro do pessoal da CART 2732 - Manuel Casal ladeado pelos ex-alferes Francisco Baptista e Bento

Minde, 2018 - Manuel Casal cumprimenta a Isabel, esposa do Ornelas.

Minde, 2018 - O ex-Cap Mil Jorge Picado abraça os seus ex-alferes, Bento e Casal. À direita o ex-alferes Baptista

Minde, 2018 - Foto de Família do encontro do pessoal da CART 2732. Manuel Casal entre o ex-Alf Mil Baptista e o Coronel Carlos Abreu.

A devida vénia aos autores das fotos

Carlos Vinhal
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sábado, 20 de julho de 2019

P66 - O "Estatuto do antigo Combatente - Governo às turras com antigos combatentes (João Gouveia, ex-1.º Cabo At Art da CART 2732)



Governo às turras com antigos combatentes

Se ainda há quem tenha dúvidas sobre o desprezo que os sucessivos governos da República têm dado aos ex-combatentes, acabámos de ser confrontados com mais uma abrupta e aberrante decisão que levamos ao conhecimento de todos os colegas que foram obrigados a ir para a guerra, em defesa da Pátria.

O Governo tomou, ontem (17 de julho de 2019), a decisão de suspender a proposta de lei sobre o estatuto do antigo combatente que tinha sido aprovada, pelo mesmo Governo, a 11 de Abril deste ano. Na altura, com base nas informações que tínhamos, pusemos sérias dúvidas sobre a citada proposta de lei que o Governo se apressou a divulgar nos mass media com toda a pompa. Agora que suspende a dita proposta de lei a notícia é dada em letras pequenas e quase invisíveis.

Mas o mais caricato é a justificação que o Governo dá, por intermédio do ministro da Defesa, para a suspensão do que tinha aprovado há cerca de quatro meses. O Governo anula a proposta de lei sobre o estatuto do antigo combatente, anteriormente aprovada, por ausência de “tempo útil” e de “viabilidade”.

Caímos em mais uma emboscada. O Governo anda às turras com os antigos combatentes. Não há o mínimo pingo de sangue de vergonha, brutal desconsideração, com avanços e recuos a todos os títulos inqualificáveis. Felizmente da nossa parte, não estamos à espera do governo (este, em letra minúscula) para viver, mas conhecemos antigos combatentes que têm necessidades.

Pátria e a Nação não fazem parte do vocabulário político actual, são menoridades para duvidosa democracia, para políticos e governantes metaforicamente ignorantes quanto à guerra travada em território hostil e frente a guerrilheiros (turras) que só pensavam em matar os jovens militares portugueses.

Não tenhamos ilusões, esta “retirada” da proposta de lei significa um nunca mais. Já passaram 45 anos do fim da guerra no ex-ultramar e a devida justiça não foi feita. Alimentar esperanças é iludir-se e ser traído por quem promete e não cumpre. Cada qual que tire as suas ilações. São muitas as emboscadas psicológicas e dossiers esquecidos nas gavetas do poder. Não brinquem com os Antigos Combatentes… tenham respeito por quem defendeu a Pátria. No mínimo!

João Godim
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terça-feira, 21 de maio de 2019

P65 - In Memoriam: Falecimento, neste mês de Maio, do nosso camarada de armas Isidro Batista Rodrigues Nóbrega


Informou o nosso amigo e camarada de armas José Manuel Rodrigues Vieira que faleceu este mês o Isidro Batista Rodrigues Nóbrega, elemento do 3.º Pelotão da nossa CART 2732.

Mais um camarada que dá por finda a sua comissão de serviço entre os vivos. Que descanse em paz.


O antigos Combatentes da CART 2732 enviam aos familiares do Isidro as suas mais sentidas condolências.
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domingo, 28 de abril de 2019

P64 - Na guerra da Guiné... sem tiros! (João Gouveia, ex-1.º Cabo At Art da CART 2732)

Viatura Unimog da CART 2732, destruída pelo fogo IN na emboscada de 06DEZ71 na zona de Mamboncó, na Estrada Mansoa/Mansabá

Na guerra da Guiné... sem tiros!

O cidadão português Otelo Saraiva de Carvalho, 82 anos de idade, coronel do exército reformado, assume-se como o estratega do 25 de abril de 1974 que derrubou o regime da ditadura. Assume-se e é reconhecido como tal pelos seus camaradas. De Otelo, natural de Moçambique, já muito se disse mas, sempre que fala da guerra e da revolução dos cravos, algo de novo é revelado com inusitada surpresa.

Decorridos 45 anos da revolução, Otelo é convidado pelo “Governo Sombra” da TVI e pela revista “Nova Gente” para recordar os tempos históricos então vividos na guerra e da estratégia que engendrou para derrubar a ditadura. Das comissões que fez na Guiné e em Angola declara que nunca disparou um tiro: ““nunca disparei a minha arma durante a guerra”; “sofri emboscadas, com tiros a passar-me por cima… nunca me deitei ao chão para disparar, levava muitas vezes a arma descarregada”…
Com tais afirmações, apanhou-nos de surpresa, a nós e a milhares de militares que combateram na guerra em África.
Como? Onde? O quê? Sofrer emboscadas e ficar de pé? Não ripostar quando o inimigo (turras) disparava a matar? Com a arma (G3) sem balas? Das duas, uma: ou nunca caiu numa emboscada a valer, daquelas que causam mortes, feridos e carros militares a arder, ou teve a sorte de refugiar-se no capim, atrás de um formigueiro, enquanto os seus camaradas enfrentavam o inimigo, ou nos bombardeamentos ao vulnerável quartel era rápido a refugiar-se num abrigo.

Se Otelo Saraiva de Carvalho participou na guerra na Guiné, mobilizado por imposição, tal como nós e de milhares de jovens, com a postura que agora revelou nas entrevistas aos mass media atrás referidos, teve a sorte que mais ninguém teve. Otelo não foi um combatente, não tem direito a ser considerado “antigo combatente”, sem nada de regozijo, porque, como diz, não combateu.

Da estratégia do 25 de abril, já entramos noutra guerra. O “inimigo” era um regime a cair de podre. Ouve coragem e mérito de todos os intervenientes. Já estamos ao lado de Otelo quando esperava por outro andamento da democracia que veio a ser aprisionada por ideologias e falsas promessas. Tem razão quando recorda o ataque soez de “Manuel Monteiro e Paulo Portas (CDS/PP)… “chamaram-me assassino”. É bom de ver, os dois políticos e muitos outros não teriam lugar na política sem o 25 de abril.

São alegorias de um militar que também esteve na Guiné. Sem balas e sem tiros.
Como em tudo na vida, há vilões e heróis.

João Godim
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domingo, 14 de abril de 2019

P63 - Encontro de 16 camaradas da CART 2732, no passado dia 31 de Março, em Linda-a-Velha (Inácio Silva)



No passado dia 31 de Março, realizou-se um encontro com a presença de 16 camaradas da nossa Companhia, no Restaurante AQUARIUS, propriedade do nosso camarada Américo Bento e a convite deste. Da Ilha da Madeira, registou-se a presença do Ornelas e do Alfredo Gouveia.

Neste encontro, alguns camaradas fizeram-se acompanhar dos respectivos familiares, tendo contribuído para aumentar o número de "efectivos".

Mais uma vez, este evento foi da iniciativa do Malhão e do Pedro, que desenvolveram as convocatórias, através de telefonemas para todos os camaradas, cujos contactos são conhecidos.

O Ribeiro, que foi alferes de transmissões no COP6, teve a louvável iniciativa de colocar os nomes dos camaradas presentes numa fotografia do quartel de Mansabá, anexa a este post, tendo feito a entrega de um exemplar a cada um dos presentes.

Neste encontro, também nasceu a iniciativa de registar em ficheiro magnético, para já no computador do Ribeiro, os contactos de todos nós, telefónicos e de e-mail, devendo ser este último o meio pelo qual se privilegiará as convocatórias para futuros encontros.

O inesperado, reservado para o final, foi o facto do Américo Bento declarar que a conta do almoço seria por sua conta, o que nos deixou surpreendidos. Pelo simpático e amistoso gesto, deixamos-lhe os nossos sinceros agradecimentos.

Ficam, aqui, algumas fotos. No entanto, sabendo que outros camaradas também obtiveram imagens do encontro, solicita-se que as enviem para o endereço do blogue, cart2732@gmail.com, para que sejam apensas a este post.

13-04-2019
Inácio Silva

 Em primeiro plano, à esquerda Francisco Fonseca e à direita, Ismael Santos

 À esquerda a Isabel acompanhada pela Amélia, esposas respectivamente do Ornelas e do Inácio


 Inácio e Ornelas



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sábado, 13 de abril de 2019

P62 - O "Estatuto e o Cartão dos antigos Combatentes (João Gouveia, ex-1.º Cabo At Art da CART 2732)

Antigos Combatentes a desfilar
Foto: Dina Vinhal


Cartão para os antigos combatentes

O governo aprovou, ontem, (11 de abril de 2019), o “Estatuto de Antigo Combatente”. 
O termo é enternecedor e digno de figurar nos feitos benevolentes do governo de Portugal, algo que nem todos os países fazem. Para o cidadão comum a aprovação de um estatuto desta natureza vem trazer benefícios para os que foram obrigados a marchar para a guerra da morte e da sobrevivência.

Li nos jornais que “este reconhecimento do Estado dá direito a um cartão especial para os militares que combateram na defesa de Portugal”. Meças de elogios e de gratidão. Um cartão para quê? Com que benefícios? Apoio aos ex-combatentes em que áreas? Não é explicitamente referido, como, onde, em que circunstancias? Nem como obter o dito cartão.

No meio da verdade-duvidosa, talvez para não embandeirar em arco um cartão que pouca representará, diz-se que este estatuto visa apoiar “ os antigos combatentes que se encontram em situação de sem-abrigo, a precisar de apoio económico e social”. Estamos esclarecidos.

Muito obrigado senhor governo. Meia volta volver. Algo muito parecido fez o ex-ministro da defesa do governo PSD-CDS/PP, Paulo Portas, quando do alto da sua cátedra anunciou a atribuição de uns míseros abonos financeiros aos ex-combatentes. O povo gostou do anúncio, os cêntimos anuais nem dá para matar a fome. 

Certo é o “Dia do Combatente” passar a ser assinalado a 11 de novembro, momento para chorosas e empolgantes alocuções.

João Godim
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quarta-feira, 6 de março de 2019

P61 - In Memoriam: Falecimento, no passado dia 3 de Março, do 1.º Sargento João da Costa Rita da CART 2732

Acabou de chegar ao meu conhecimento, via José da Câmara, também este um amigo e camarada de armas dos Açores, combatente na Guiné, a triste notícia do falecimento, no passado dia 3, do "nosso" Primeiro Rita, com quem partilhei imensas horas enquanto estive "impedido" na Secretaria da Companhia e mesmo como Furriel Miliciano.

Apesar de mais velho, e pertencente ao "Quadro Permanente das FA", era um camarada que tudo fazia para nos integrar, respeitando-nos e fazendo-se respeitar. São inúmeros os episódios em que demonstrou estar sempre do lado dos milicianos. 
A sua experiência foi muito importante principalmente para os Furriéis especialistas da Companhia, ajudando-os na parte burocrática, muito mais complexa, por vezes, que a operacional.
Se bem se lembram, a CART 2732 esteve muitas vezes sem Comandante, sendo nestes intervalos os nossos alferes milicianos a assumir o seu comando. Nestas alturas sempre tiveram da parte do 1.º Rita a melhor colaboração e lealdade.

Mansabá, dia de aniversário do Cap Mil Jorge Picado. O 1.º Rita é o primeiro à direita
Foto: Jorge Picado


Com a devida vénia ao jornal Correio dos Açores

Mantive desde sempre contacto com o Chefe Rita, como lhe chamávamos, tendo-o visitado, inclusive, quando em 2006 estive nos Açores. Ainda falei com ele neste Natal de 2018, nada me levando a acreditar que era a última vez que o ouvia dizer: - Então senhor Carlos?

Tinha um sentido de humor apurado. Entre muitas "tiradas", retenho algumas como por exemplo ele ser o único branco nos Açores (era natural da ilha do Faial mas vivia na Terceira), e falar da árvore do macarrão, existente unicamente naquelas ilhas, em contraponto aos imensos arrozais da Guiné. Quando desaparecia algum papel na secretaria, dizia sempre que alguma vaca o tinha comido. Tendo prestado serviço na então Índia Portuguesa, onde foi prisioneiro de guerra, dizia-nos que lá as vacas andavam por tudo quanto era sítio e que ninguém as podia maltratar. Comiam tudo que apanhavam, tal era a fome, incluindo papel.

Ponta Delgada, 21JUL2006. Eu e o 1.º Rita

À sua esposa, filhos, netos e demais familiares, quero deixar, em meu nome pessoal e dos elementos da CART 2732, principalmente dos que mais de perto lidaram com ele, as mais sentidas condolências.

Foi um bom Homem. 
Que descanse em Paz

Carlos Vinhal
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

P60 - O "Estatuto do Combatente" de volta à cena (João Gouveia, ex-1.º Cabo At Art da CART 2732)

Vista aérea do aquartelamento de Mansabá
Com a devida vénia ao Alf Mil Alfredo Montezuma do BCAÇ 2885


Mensagem do nosso camarada de armas João Gouveia  (ex-1.º Cabo da 2.ª Secção do 3.º Pelotão da nossa CART 2732) com data de 22 de Janeiro de 2019:

Porque a questão "estatuto do combatente" volta a ser citado, sem timing de aprovação e sem consulta prévia aos visados, envio um breve texto, um contributo pessoal, elaborado em função do que leio e contactos que vou estabelecendo. 
Um estatuto que já todos os governos prometeram e pouco ou nada fizeram. 

Abraço e Bom Ano
João Godim

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"Estatuto do Combatente" de volta à cena 

Mais uma vez vem à baila o “Estatuto do Combatente”. Matéria que já tem longas barbas brancas. Nos últimos 40 anos, os sucessivos governos, parlamentares e chefes de Estado tomaram conhecimento deste “ingrato esquecimento” da Pátria. São inúmeras as reuniões, exposições, debates, grupos criados expressamente para elaborar um texto final. Milhares de horas de trabalho (!). 

Uma matéria com centenas de “metros” de prosa, dossiers e conclusões... inconclusivas que começou a ser escrita logo após o 25 de abril de 1974. Estamos no início do ano (com três actos eleitorais) e o actual ministro da defesa anuncia que “o governo está a preparar um diploma para consagrar o estatuto do combatente”. Como prometer não custa, o anúncio é feito com pouca convicção, o que nos deixa na desconfiança. 

Os ex-Combatentes estão esquecidos, desconsiderados, colocados no rodapé das prioridades do governo, como se não tivessem lutado pela Pátria, feridos e “abatidos” por inimigos de um Portugal ditatorial. Os combatentes portugueses foram obrigados a ir para a guerra, desde a I Grande Guerra, e nunca foram reconhecidos. 

Os governantes revelam não valorizar o passado mas o presente e sobretudo o futuro muito próximo. Sabem que estão de passagem, que o voto é que conta e que a guerra não entra no cenário eleitoral. 

“Estatuto do Combatente” é uma promessa simpática, neutra e positiva, mais pataco menos pataco, mas não tenham os ex-combatentes ilusões, a questão de fundo continuará pelos fundos dos descompromissos. 

Como dizia São Tomé “só ver, para crer”.

João Godim
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

P59 - Feliz Natal (João Gouveia, ex-1.º Cabo At Art da CART 2732)

Espectáculo de fogo-de-artifício da Madeira
Com a devida vénia a Fugas.Viagens


Mensagem do nosso camarada de armas João Gouveia  (ex-1.º Cabo da 2.ª Secção do 3.º Pelotão da nossa CART 2732) com data de hoje, 21 de Dezembro de 2018:

Abordar o Natal num cenário de guerra é um tanto pictórico do nosso imaginário. Natal há sempre como sempre há o nascimento de Jesus e a ressurreição de Cristo, está na raiz da nossa cultura, com mais de dois mil anos. Mas o Natal na guerra é como um ausente-presente.

Em Mansabá não me recordo de ter visto alusões ao Natal, salvo um pequeno símbolo alusivo à quadra feito pelo Samuel (já falecido) no bunker, “ abrigo da bola”. Sem imagens de “santos”, sem velas nem orações.

O Natal na Guiné (dois natais, 1970 e 1971) fazia aumentar a tensão da guerra. Ou seja, havia a sensação que o inimigo muçulmano atacasse na época festiva dos cristãos, que eram as tropas portuguesas, crentes ou agnósticas. De um lado católicos, do outro lado muçulmanos. Até que ponto a religião influenciava a guerra na Guiné, não sabemos, mas sabemos que não dava tréguas, pelo contrário.

Foi há quase meio século! O que lá se passou… só quem lá esteve sabe e guarda na sua inapagável memória. A distância num tempo que nos faz viver um passado-presente.

Um Santo Natal para todos, extensivo aos familiares, e que a saúde e a felicidade os acompanhem em todos os momentos.

Abraço, de Lisboa para todos os colegas (não simpatizo com o vocábulo camarada) da CART 2732.
Aos que tiverem oportunidade, não deixem de saborear o bolo de mel, os licores caseiros e a inimitável poncha com aguardente de cana sacarina.
O fogo-de-artifício (o melhor do mundo na passagem de ano, segundo o Guinness) pode ser visto no canal 188 da Nós ou Meo, à meia-noite do dia 31 de Dezembro.

Boas Festas, Feliz Ano Novo.
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

P58 - Natal, guerra e mortes (João Gouveia, ex-1.º Cabo Atirador da CART 2732)

Mensagem do nosso camarada João Gouveia  (ex-1.º Cabo da 2.ª Secção do 3.º Pelotão da nossa CART 2732) com data de hoje, 10 de Dezembro de 2018:

Boa tarde,
Um breve texto sobre uma data.
Com opção de publicação, deixo ao v/critério
Abraço
João Gouveia

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Natal, guerra e mortes

Está a fazer anos que a CART 2732 sofreu a mais sangrenta emboscada das muitas que enfrentou e travou na Guiné. Foi a 6 de dezembro de 1971, no percurso entre Mansoa e Mansabá – zona de Mamboncó –, conhecido pelo “corredor da morte”, que o inimigo infligiu um ataque arrasador cujo poderio esteve à beira de causar um massacre sem precedentes.

Mal começou o ataque, o inimigo operou de uma forma tão rápida e com uma frente de tal modo poderosa que nós reagimos, sem nada ver, enquanto os guerrilheiros do PAIGC sabiam onde estávamos. Rapidamente ficámos em desvantagem, apesar da nossa pronta reação, um tanto às-cegas. Foram intensos momentos (20 minutos!) debaixo de fogo.

É das poucas imagens que retenho da guerra na Guiné: Ao meu lado, vi o José do Espírito Santo Barbosa (Soldado atirador) e o José Manuel Vieira (1.º Cabo atirador), deitados na vala em gemidos dolorosos. Atrás de mim, um jovem negro que tinha pedido boleia em Mansoa, jorrava sangue pela cara com olhar de terror. De relance vi um carro a arder. Naquele pedaço de vala só eu estava 100 % vivo! Utilizei todas as cartucheiras e fiquei em balas. Os “turras” continuavam a metralhar. Pela primeira vez na vida ocorreu-me a imagem da morte. Tive consciência da vantagem do inimigo sobre nós. A G3 e a granada não eram suficientes para vencer cerca de 50 guerrilheiros conhecedores da “zona” e bem equipados, com Kalashnikov's, granadas, morteiros e rocket´s. Tenho também a impressão que foram os “Fiat´s”, aviões caça bombardeiros, que nos salvaram de um massacre mais avassalador. Com a chegada dos “Fiat´s”, o inimigo recuou, fugiu, e nós deixamos de estar debaixo do fogo mortal.

Tivemos sorte? Vim a saber, pelo blogue da Cart 2732, que as NT (Nossas Tropas), num balanço final, sofreram: 2 mortos, 11 feridos graves e 8 feridos ligeiros, bem como dois carros (Unimog’s) destruídos. Milagre para um cenário reconhecidamente superior do inimigo. Fomos heróis!? Os anjos vieram do céu com o nome de “Fiat´s”.

NB: Em Agosto de 1971, vim de férias à Madeira, na mesma data veio o camarada Barbosa. Saímos de Bissau para Lisboa, na capital fomos à Feira Popular, e na manhã do dia seguinte viajamos para o Funchal. No regresso encontrámo-nos no Aeroporto da Madeira… foi a última vez que viu-o a receber abraços de familiares. Cerca de quatro meses depois morria em combate. Foi louvado… Para nada! Foi mais uma vítima da guerra na quadra natalícia. Ele, Barbosa, que pretendia emigrar para o estrangeiro.

UM SANTO NATAL PARA TODOS
Abraço,
João Gouveia
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Notas do editor:

Soldado Atirador Manuel Vieira, em primeiro plano, de pé, morto na emboscada de 6 de Dezembro de 1971.

José do Espírito Santo Barbosa, Soldado Atirador, morreu em 14 de Dezembro de 1971, no HM 241 de Bissau, vítima de ferimentos recebidos em combate no dia 6 de Dezembro.

- Vd. postes:

P37 - As nossas datas (4): Lembrando o nosso camarada Manuel Vieira, falecido no dia 6 de Dezembro de 1971
e
P38 - As nossas datas (5): Lembrando o nosso camarada José do Espírito Santo Barbosa, falecido no dia 14 de Dezembro de 1971

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

P57 - Notícias dos nossos camaradas (8): João Gouveia, ex-1.º Cabo da 2.ª Secção do 3.º Pelotão

Mensagem do nosso camarada João Gouveia, na foto à direita, (ex-1.º Cabo da 2.ª Secção do 3.º Pelotão da nossa CART 2732) enviada ao nosso blogue em 27 de Novembro último:

Boa tarde. Breve notícia.
Cordiais saudações
Abraço
João Gouveia


CART 2732 NO ENCONTRO DO “M.M.M.”

Os militares madeirenses que combateram no ex-ultramar português estão a fortalecer laços de solidariedade e confraternização. Todos de todas as companhias mobilizadas para as guerras na Índia (Goa, Damão e Diu), em África (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau), assim como em Timor-Leste, são convidados a participar nas cerimónias que terminam com um almoço convívio na zona oeste da Ilha (Calheta).

As inscrições terminam no dia 30 (sexta-feira) e o XVIII Encontro decorre no dia 2 de Dezembro (domingo). Está confirmada a presença de militares que integraram a CART 2732, (Companhia de Artilharia), cuja missão na Guiné-Bissau decorreu entre 1970/1972.

Dado que a CART 2732 incorporou militares de Portugal continental, na sua maioria pertencentes aos quadros de sargentos e oficiais, a sua participação neste evento está profundamente legitimada, bem como os seus familiares. Neste como em todos os eventos promovidos pelo M.M.M. (Movimento Militar Madeirense), a CART 2732 nunca deixará de participar.
Contacto: 968 041 678.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

P56 - Notícias dos nossos camaradas (7): João Gouveia, ex-1.º Cabo da 2.ª Secção do 3.º Pelotão

Mensagem do nosso camarada João Gouveia, na foto à direita, (ex-1.º Cabo da 2.ª Secção do 3.º Pelotão da nossa CART 2732) enviada ao nosso blogue em 2 de Agosto último:

Caros amigos:

Primeira frase: “BOM RANCHO” para os camaradas da 2732 que vão poder estar na capital do norte da Madeira, a nobre vila de São Vicente.

Segunda frase: “TEMPO PASSADO NO PRESENTE” porque todo o passado está sempre presente nas nossas vidas, não há que olvidar.

Terceira frase: “JUVENTUDE VALENTE” pela maneira como encarámos e suportámos a extrema violência de uma guerra em terreno desconhecido e hostil.

Caros amigos, inesquecíveis, desde há alguns anos que estou a viver e em actividade profissional fora da Madeira: Bélgica, França, Espanha e Portugal (Continente). 
Na Madeira, até 2006, fui jornalista no Jornal da Madeira, ao mesmo tempo que era correspondente dalgumas publicações editadas no exterior. O tempo passa e chegamos aos 70 (sem aspas) como se os anos não passassem por nós.

A “guerra” não é ficção para quem esteve na Guiné, para jovens que sentiram a morte por perto, ouviram as metralhadoras do inimigo a dispararem na nossa direcção, que nós (2732), vimos colegas morrer, outros gravemente feridos, carros a arder, emboscadas mortais e ataques ao quartel que nos ponham entra e a vida e a morte.

É verdade, o tempo passa mas os cenários ficam.

Não podendo estar presente no convívio, por razões profissionais, faço votos que tenham uma jornada de boa amizade, confraternização e partilha de intermináveis recordações que a guerra em todos deixou.

GRANDE ABRAÇO e que tenham o melhor que a vida ainda tem para nos dar! 

Até sempre.
João Gouveia (João Godim)
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Comentário de CV:

Caro João Gouveia, muito obrigado pelo teu contacto.

Não sei se sabias da existência deste Blogue dedicado aos valorosos combatentes da CART 2732, que foi criado pelo Inácio Silva que por sua vez me convidou a, dentro do possível, mantê-lo vivo e actualizado.

Julgo que estás a viver no continente pelo que poderias ter estado connosco no passado dia 17 de Junho em Fátima, num convívio que juntou alguma malta que vive no continente. Podes ver as fotos a partir do link na aba do blogue.

Vamos ficar com o teu endereço para futuros contactos.

Já acedi ao teu blogue, muito interessante, para o qual acrescentei o link na nossa página.

Deixo-te um abraço e os votos de excelente saúde.
Carlos Vinhal
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segunda-feira, 25 de junho de 2018

P55 - Reportagem fotográfica do Almoço/Convívio do pessoal da nossa CART 2732, levado a efeito, com organização dos nossos camaradas João Malhão e Reis Pedro, no passado dia 17 de Junho de 2018, em Minde (Fátima)

Foto de família dos participantes no Convívio, de 2018, do pessoal da CART 2732 e seus familiares
 
Graças ao esforço dos nossos camaradas João Malhão e Reis Pedro, no passado dia 17 de Junho concretizou-se mais um convívio do pessoal da nossa CART 2732, e respectivas famílias, desta vez em Minde (Fátima).

Um belo recanto da Quinta D. Nuno onde decorreu o Convívio

Os madrugadores: Ex-Alf Mil Casal; ex-Alf Mil Bento: ex-Cap Art Carlos Abreu (ex-CMDT do COP 6); ex-Sold Condutor Azevedo; ex-Fur Mil Mec Auto Dias e ex-Sold Condutor Dores.

Localizado mesmo a tempo de poder participar pela primeira vez em convívios da CART 2732, o nosso inesquecível Furriel Enfermeiro Marques

Já mais próximo da hora de almoço estão nas fotos: o Ex-Fur Mil CMD Mendonça e família; o ex-Fur Mil Ismael Santos e esposa; o ex-Cap Mil Jorge Picado e o ex-Alf Mil Francisco Baptista

E eis que chega o nosso operador de Transmissões, João Malhão, com a notícia de que a Operação não podia ser abortada. O almoço estava por minutos.

Os laços de amizade também se estendem aos familiares. Aqui a Isabel, esposa do Ornelas, com o Manuel Casal, visivelmente regozijados pelo reencontro.

Três ex-furriéis da CART 2732: Carneiro, Lourenço e Mendonça

Mesmo na sombra são bonitas as nossas bajudas

Carneiro, Dias, Dores e Azevedo

 Jorge Picado e Francisco Baptista

Ornelas e Marques

Reis Pedro, um dos organizadores do Convívio, falando com a esposa do Carneiro que aparece na foto momentaneamente distraído

Uns sorrisos bonitos das companheiras do Vinhal, Ornelas e Inácio, respectivamente. De lado, a esposa do Casal

O ex-Cap Mil Jorge Picado abraça os seus ex-Alferes, Bento e Casal. Ao lado o ex-Alferes Baptista que veio posteriormente para a Companhia

O Mendonça, que passou pouco tempo na CART 2732, por ser ferido em combate e ter sido evacuado, fala com o Fonseca, quem sabe se disso mesmo.

Mesa da Presidência: Marques, Reis Pedro, João Malhão e Manuel Casal

Mesa da Presidência: à direita, o senhor General Artur Neves Pina Monteiro, até há pouco tempo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, que se fez acompanhar de sua esposa, também na foto, deu-nos a honra de presidir ao Convívio da CART 2732.

O senhor Coronel Carlos Abreu, à esquerda, em conversa com o senhor General Pina Monteiro




A mesa das nossas esposas

Nesta mesa: Vinhal, Carneiro, Ismael Santos, Mendonça e Fonseca...

... Dias e Ornelas...

... Fonseca, Lourenço, Dores e Azevedo

Nesta foto, onde lamentavelmente faltam o João Malhão e o Reis Pedro, ocupados a fazer contas no restaurante, e o Marques, em parte incerta, estão: fila superior: Carneiro, Azevedo, Ezequiel Filipe e Bento; fila do meio: General Pina Monteiro, Dias, Ismael Santos, Francisco Baptista, Manuel Casal, Coronel Carlos Abreu, Jorge Picado e Mendonça; fila de baixo: Ornelas, Dores, Inácio Silva, Lourenço, Matos, Fonseca e Vinhal

Aqui estão as nossas meninas, muitas delas já namoradas ou esposas no tempo da guerra

Entretanto chegado junto das Forças em Parada, o camarada Malhão, visivelmente emocionado, agradece a participação dos presentes.

Aqui fica, para memória futura, o devido destaque a estes dois camaradas que pensaram e levaram a efeito este Convívio. Muito obrigado, Pedro e Malhão.

Quem sabe, se lembrando os 50 anos do nosso embarque com destino à Guiné, que ocorre em 13 de Abril de 2020, nos voltemos a encontrar, desta vez no Funchal, de onde partimos no longínquo ano de 1970 para a nossa aventura africana.
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Fotos e legendagem: Carlos Vinhal
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