sábado, 27 de dezembro de 2014

P51 - Notícia do falecimento do nosso camarada Gardete Correia (1948-2014), o Furriel Correia do 3.º Pelotão da CART 2732

Em contacto telefónico de há momentos, o camarada Reis Pedro deu-me a triste notícia do falecimento, no passado dia 6 de Novembro, do Furriel Gardete Correia do 3.º Pelotão, que era comandado pelo Alferes Bento. Como se devem lembrar, faziam ainda parte deste Pelotão o Furriel Nunes e eu próprio.

À família enlutada endereçamos os nossos mais sentidos pêsames.

Em preito de homenagem publicam-se algumas fotos que lembram o nosso malogrado camarada Correia

Funchal - Madeira - 1970 - Na Fortificação do Palheiro Ferreira - Cabos Milicianos Nunes, Correia e Vinhal

Funchal - Madeira - GAG-2 - 07ABR70 - Junto Memorial, entretanto derrubado, que perpetuava as Unidades ali Mobilizadas para o Ultramar: Cabos Milicianos Nunes, Vinhal e Correia

Guiné - Mansabá - 02JUL70 - Junto a um obus: Fur Mil TRMS Lorenço, Fur Mil At Correia, Fur Mil Enf.º Marques e Fur Mil At Vinhal

Guiné - Mansabá - 13ABR71 - Dia de paródia. Em cima: Furs Mils Nunes e Correia; em baixo: Fur Mil Vinhal e Alf Mil Bento, todos do 3.º Pelotão/CART 2732

Guiné - Mansabá - Furs Mils Vinhal, Costa, Correia e Fonseca

Guiné - Mansabá - Uma equipa de futebol da CART 2732 - 3.º de pé, a partir da esquerda o ex-Fur Mil Correia

Arruda dos Vinhos, casa do nosso camarada e amigo Reis Pedro - 18JAN2009 - Gardete Correia (de frente) em conversa com o Dias (de costas), ex-Fur Mil Mec da CART 2732

Arruda dos Vinhos - 18JAN2009 - O nosso camarada Gardete Correia (à esquerda com camisola clara) em amena conversa com camaradas que seguramente não via há muito anos.

Arruda dos Vinhos - 19JAN2009 - I Convívio da CART 2732 organizado no Continente - Foto de Família. 
Gardete Correia, na fila da frente, entre o ex-1.º Cabo Ap. Metralhadora Inácio Silva e o ex-Fur Mil Fonseca
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Carlos Vinhal
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sábado, 2 de agosto de 2014

P50 - Texto publicado no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

MEMÓRIAS DE MANSABÁ

NO DIA EM QUE MORRI

Carlos Vinhal

Domingo. Para fazer algo de diferente, sempre o que as actividades operacionais permitissem, era dia de vestir à civil, jogar ténis de mesa pela manhã e após o almoço dar um pequeno passeio pela tabanca. Às vezes até se batiam umas chapas para mandar à família e mostrar que a guerra não era aquilo que se dizia. Então não se via nas fotos?!

O pessoal da tabanca, acho que também se tinha adaptado aos nossos hábitos. As pessoas corriam em menor número à enfermaria civil e militar, e as nossas lavadeiras não entregavam roupa lavada. A população, pela manhã, assistia com respeito ao hastear da Bandeira Nacional em frente ao Posto Administrativo, cerimónia que só acontecia ao domingo. Os homens conversavam ou deambulavam pela tabanca ouvindo música ou os relatos de futebol da Metrópole, em alto som, como era hábito, naqueles portáteis enormes por vezes carregados ao ombro.

Depois de um almoço melhorado, bem regado com uma cervejinha geladinha, tomado o digestivo, normalmente um VAT 69 ou um White Horse, como era hábito lá fomos arejar o fato domingueiro.

Tínhamos aprendido na Doutrina que o domingo era dia do Senhor, dia de descanso, dia de paz e amor.
As diversas actividades quotidianas nem sempre permitiam o contacto directo com a população. Dois dedos de conversa aqui, um piropo a uma bajuda ali, por que não até uma inocente foto com algumas delas, e assim se ocupava algum tempo. 

 Interior do quartel de Mansabá, 28 de Novembro de 1971 - O Fur Mil Mec Auto Dias e eu

Naquele domingo, regressava o grupo já em direcção à porta de armas, ainda em plena avenida de acesso ao quartel, quem vinha de Cutia, quando rebenta um fogachal enorme.
O quartel estava a ser atacado em pleno dia, o que era extremamente raro.

Armas pesadas e ligeiras pareciam instaladas junto ao arame farpado, quando não, já do lado de dentro.
Começámos a correr o mais que podíamos em direcção aos nossos aposentos para nos armarmos e ocuparmos os nossos postos ou pura e simplesmente irmos para o abrigo mais próximo.
Lembro-me que ultrapassei a porta de armas, antecedido por uns quantos camaradas e, quando a escassos vinte metros da porta do meu quarto, situado precisamente no enfiamento da entrada do quartel, sinto um impacto violento nas costas.

Caio de bruços, curiosamente sem dores. Acho que se apaga uma luz ao mesmo tempo que sinto uma paz como nunca tinha sentido.

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O quarto dos pesadelos

Sobressaltado, dou um pulo na cama e desperto.
Não era domingo, não era de dia, nem felizmente o quartel estava a ser assaltado.
Tento na escuridão verificar que o meu camarada Dias não se tenha apercebido do meu pesadelo. O silêncio reinava no quarto. Ainda bem.

Lá fora, na noite escura e misteriosa, alguns dos meus camaradas velavam pela nossa relativa segurança. Bem hajam.
Esperei acordado pelo romper do dia já que não mais consegui adormecer.

Carlos Vinhal, 
ex-Fur Mil Art MA, 
CART 2732, 
Mansabá, 1970/72

sexta-feira, 11 de julho de 2014

P49 - Notícias dos nossos camaradas (6): Francisco Silveira Rebelo, ex-Soldado TRMS que mora no Montijo.

Foi publicado no Correio da Manhã do dia 15 de Junho um depoimento do nosso camarada da CART 2732, Francisco Silveira Rebelo, na rubrica "a minha guerra".

A propósito desta publicação, recebi no dia 6 de Julho uma mensagem de um amigo que fez a recruta com o Rebelo, que se transcreve:

Bom dia amigo Carlos.
Ao pesquisar este amigo Francisco Silveira Rebelo, fui descobrir no seu blogue que prestou serviço militar na companhia de artilharia 2732.
Este meu email é para lhe pedir se me consegue dar o contacto do Francisco Silveira Rebelo, na qual estive a fazer a recruta com ele em 1969 em Beja e nunca mais mais encontrei alguém que estivesse comigo na tropa, e como vi há duas semanas o artigo na página da revista do correio da manhã ao domingo, gostaria de ter algum contacto com alguém.
Obrigado e aguardo

Um abraço
Carlos Costa

Como desconhecia qualquer contacto do Rebelo, resolvi recorrer ao "1820" na tentativa de o localizar.
Foi tiro e queda. Passados minutos entrava em contacto com este nosso camarada, que mora no Montijo, relembramos muitos momentos, bons e maus, lembramos camaradas, mortos e vivos, falamos das voltas da vida e, sem darmos conta, já tinham passado longos minutos.

Se bem se lembram, o Francisco Silveira Rebelo era um dos nossos camaradas das Transmissões que nos acompanhavam em todas as patrulhas e operações. Ele está na foto, à direita, "ameaçado" pelo seu companheiro de pose.

Francisco Silveira Rebelo, na foto à direita

A quem o quiser contactar basta pedir-me os seus números de telefone.

Carlos Vinhal

quarta-feira, 25 de junho de 2014

P48 - Nascimento do bisneto do nosso Alferes Couto, CMDT do 4.º Pelotão, vítima de uma mina IN no dia 6 de Outubro de 1970


A neta e o bisneto do nosso Alferes Couto

Foi com alguma emoção que recebemos, e lemos, uma mensagem da nossa amiga Custódia Couto, neta do nosso Alferes Couto, a comunicar a boa-nova de que tinha sido mãe.
Assim sendo, o nosso malogrado camarada Couto estaria agora a festejar a sua condição de bisavô não fosse aquele malfadado dia 6 de Outubro que jamais esqueceremos.

Apesar das circunstâncias, daqui enviamos as nossas felicitações à bisavó Zé pelo nascimento do Fábio.

Aos babados papás desejamos muitas felicidades e força para levarem por diante a tarefa, que desempenharão com alegria, de fazerem do filhote um cidadão digno que honre a memória dos seus antepassados, entre os quais o seu bisavô José Armando Couto e a sua avó materna, ambos infelizmente desaparecidos muito precocemente.

Ao pequeno Fábio, toda a CART 2732 envia os seus votos de uma vida repleta de venturas.

domingo, 13 de outubro de 2013

P47 - A CART 2732 na comunicação social (2): Depoimento do nosso camarada João Manuel Gouveia à revista Domingo do Correio da Manhã

Com a devida vénia ao jornal Correio da Manhã, reproduzimos as páginas 32 e 33 do seu Caderno "Domingo" onde podemos encontrar um depoimento do nosso camarada madeirense João Manuel Gouveia, ex-1.º Cabo Atirador do 3.º Pelotão da CART 2732.

Reprodução da capa da revista Domingo do Correio da Manhã de hoje 13 de Outubro de 2013


Esta é mais uma memória inserida na série "A minha guerra" que o Correio da Manhã desde há muito vem recolhendo e publicando regularmente aos domingos.

Fica aqui um abraço dos editores deste blogue ao nosso camarada João Gouveia a quem deixamos convite para colaborar connosco se assim o desejar.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

P46 - Monumento aos combatentes construído em Machico, Madeira

Sendo eu natural de Machico, Madeira e tendo cumprido serviço militar na Guiné, nos longínquos anos de 1970-72, integrado na companhia de madeirenses, CART 2732, não posso deixar de louvar esta iniciativa da Liga dos Combatentes da Madeira, com o apoio do governo regional.

Fui surpreendido por esta agradável notícia, que sendo já muito tardia a prestação desta homenagem, não deixa, no entanto, de merecer o meu apreço.

A minha vénia aos meus camaradas de guerra que pereceram em terras de África, outrora, parcelas de Portugal...

http://ultramar.terraweb.biz/Memoriais_concelhos_Machico_Machico.htm

Inácio Silva

quinta-feira, 4 de julho de 2013

P45 - O nosso camarada Álvaro Dias esteve no Funchal a homenagear os mortos da CART 2732

Mensagem do nosso camarada Álvaro Dias, que foi Soldado de Transmissões de Inf.ª na nossa CART, com data de  26 de Junho de 2013:

Assunto: 43 anos da nossa partida para a Guiné

Caros companheiros
Aqui vão algumas fotografias da cerimónia aos combatentes do ultramar e da Grande Guerra. Gostava que estivessem mais companheiros nesta cerimónia mas tal não foi possível, foi muito em cima da hora, paciência.
Estive eu com a minha esposa a colocar um ramo de flores em memória dos mortos em combate da CART 2732, não sei se estão lembrados mas eu já era casado e tinha um filho, por isso a minha esposa tem um sentimento muito grande por aqueles que lá morreram, alguns sem conhecerem os filhos que entretanto nasceram, como é o caso do meu grande amigo Alf. Couto.

A cerimónia foi realizada no dia 13/04/2013 no parque da Nazaré em São Martinho, Funchal, junto do monumento aos Mortos do Ultramar.
O nosso ramo de flores é redondo tendo ao meio uma fotografia da lápide que eu pintei em Mansabá, junto ao abrigo de Bissorã, com os nomes dos mortos em combate da CART 2732. Já agora, também foi eu que pintei a placa toponímica de Mansabá.

Junto a fotografia da lápide, em separado, e o poema que então fiz aquando da morte do meu amigo Alf. Couto, e que não se consegue ler na fotografia, inserida no ramo. O poema que então escrevi e do qual transcrevo também o original, foi depois acrescentado em consequência de mais três mortos. Assim este poema é dedicado em especial ao grande amigo Alferes Couto e a todos os que posteriormente tombaram.

Original
A verdade que encerra
A partida deste bravo
Tão cedo desta terra
De nada foi culpado

Adaptado
A verdade que encerra
A partida destes bravos
Tão cedo desta terra
De nada foram culpados





P44 - Notícias dos nossos camaradas (5): Francisco Batista, ex-Alf Mil, CMDT do 4.º Pelotão da CART 2732.

Mensagem datada de 6 de Junho de 2013 do nosso camarada Francisco Batista, ex-Alf Mil, que passou a fazer parte dos efectivos da nossa Cart 2732 em Setembro de 1971:

Tendo ido para a Guiné em rendição individual, já em final de comissão fui recambiado para a CART 2732, em Mansabá. 
Recordo que no geral todos os camaradas, graduados ou não, eram simpaticos e educados, embora eu já estivesse um pouco cacimbado ou "apanhado pelo clima" como se dizia na Guiné, mas hoje faço um esforço tremendo para os recordar e recordo muito poucos. 
Parece que também eu passei o rio do esquecimento. Lembro-me de encontrar no bar o major Gaspar, comandante do COP, bom conversador e bom homem. Bebia mais whisky do que eu. Li que já morreu há anos. Paz à sua alma. 
Recordo o furriel enfermeiro que tinha um feitio folgazão, não recordo o nome, sei que era de Braga, e um dia dos últimos passados em Mansabá, lhe roubei uma garrafa de whisky e o convidei para ajudar a bebe-la, não gostou.

Recordo uma emboscada que um pelotão nosso, reforçado por uma secção do meu pelotão, sofreu entre o quartel em Mansoa, em que tivemos feridos com bastante gravidade, entre eles um cabo do meu pelotão que mesmo bastante ferido estava furioso por não ter dado uma grande sova aos "outros".

Houve também uma tarde em que o quartel sofreu uma flagelação de morteiros e eu com algum medo andei à procura de valas ao abrigos a que estava habituado no outro quartel, tendo por isso ouvido uma piada de um oficial que não era propriamente um louvor.

Gostaria de me libertar um pouco deste nevoeiro que cobre o meu passado na Guiné eis a razão que me leva a escrever a todos os que conviveram comigo ou outros porque a todos devo uma palavra de solidariedade, de amizade, enfim de boa camaradagem.

Só agora me apercebo, porque eu andava longe da internet, do imenso e útil trabalho desenvolvido pelo nosso camarada Carlos Vinhal, Luís Graça e outros bloguistas. Para eles o meu reconhecimento e o meu louvor.

E porque moro aqui paredes meias com o Carlos Vinhal, moro no Porto, e tenho um grupo informal de 15 ou 20 amigos com quem almoço quase todas as semanas em Leça da Palmeira, gostaria que viesse um dia almoçar connosco, pois o "presidente"da "confraria"até é um ex-militar da Guiné que o Carlos Vinhal já conhece.

Passem bem. 
Um abraço a todos
Francisco Batista


Comentário de CV:

Caro camarada Francisco Batista
Muito obrigado pelo seu contacto.
Já tivemos oportunidade de trocar correspondência por outra via, mas cabe aqui no nosso Blogue dar notícia desta sua mensagem.
Se não estou enganado, foi Comandante do 4.º Pelotão em substituição do Alf Mil José Manuel C.C. Meneres que por sua vez tinha ido substituir na CART o malogrado Alferes Couto que faleceu, vítima de uma mina antipessoal, em Outubro de 1970.

Da História da Unidade (CART 2732) na secção de recompletamentos, em Setembro de 1971, consta:
"Sr. Alf. Mil. n.º 11700368 - Francisco Maria Magalhães Baptista, destina-se a substituir o Sr. Alf. Mil. José Manuel C.C. Meneres, transferido para o Comando-Chefe".

Caso tenha em seu poder fotos de Mansabá, faça-mas chegar às mãos para que possa publicá-las aqui. Não tendo estado muito tempo connosco, passou por momentos bem difíceis, como todos sabemos.
Se quiser deixar aqui algumas das suas memórias, enquanto operacional da CART 2732, registá-las-emos com agrado.

Fica aqui um abraço em nome dos camaradas da nossa 2732
Carlos Vinhal

sábado, 27 de abril de 2013

P43 - Notícias dos nossos camaradas (4): Álvaro Gonçalves Dias, ex-Soldado TRMS contactou o nosso Blogue

No passado dia 6 de Abril de 2013 deu entrada na caixa de correio da CART 2732 a seguinte mensagem:

Olá Caros companheiros
Eu sou o Álvaro Dias das TRMS. 
Irá fazer 41 anos que embarcamos para a Guiné em comissão de serviço militar, continuo com os meus fantasmas de guerra. 

Estarei na Ilha da Madeira entre 11 e 14 Abril e gostava de contactar alguns companheiros para uma missa em S. Martinho, sábado dia 13/4/2013 em homenagem aos mortos da n/ companhia. 

Aguardo o v/ contacto 
Um grande abraço 
Álvaro Dias

Como nem eu nem o camarada Inácio demos conta a tempo desta mensagem, apenas ontem dei esta resposta ao Dias das Transmissões da 2732:

Caro camarada Álvaro Dias 
Só hoje vim à caixa de correio da CART, confesso que raras vezes aqui venho. Não vim a tempo de lhe dar contactos na Madeira. Pelo facto peço desculpa. 

Não me lembro de si, mas posso recordá-lo se me mandar uma foto da época. 
Eu sou o ex-furriel Vinhal que trabalhava na secretaria com o Sargento Rita e o Cabo escriturário Duarte. 
O vosso posto era mesmo ao lado. 
Se me deseja contactar use o meu mail de trabalho [...]

Em 2010 estivemos em Arruda dos Vinhos num convívio organizado pelo seu camarada Malhão e pelo Enf.º Pedro. Foi bom a malta ter-se visto ao fim de tantos anos. Da sua malta estava o Mário Soares e o Miranda. 

Em nome dos velhos tempos deixo-lhe um abraço. 
Se quiser fale comigo pelo endereço que lhe dei acima. 

Carlos Vinhal

De seguida enviei mais esta mensagem:

Álvaro 
Peço desculpa, não tinha reparado que tinha mandado uma foto. 
Claro que me lembro de si. Vocês não eram assim tantos. 
Foi você que pintou a placa toponímica ou foi só para a fotografia? 

Abraço 
Carlos Vinhal

Álvaro Gonçalves Dias, ex-Soldado de TRMS da CART 2732

Nota: - Cabe aqui uma correcção. No passado dia 13 de Abril completaram-se 43 anos após o nosso embarque para a Guiné e não 41 como refere o Álvaro.
Já agora, no passado dia 19 de Março comemorou-se o 41.º ano do nosso regresso.
CV

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

P42 - Faleceu ontem, dia 3 de Outubro de 2012, o nosso camarada José Aires da Silva

O nosso camarada Juvenal Pereira fez chegar ao blogue a notícia do falecimento, ontem à noite, de forma repentina e inesperada, do nosso camarada José AIRES da Silva, militar da CART 2732.

Todos nos lembramos dele porque foi impedido do Bar dos Praças no nosso quartel de Mansabá.

Actualmente era um conceituado empresário do Funchal, que se dedicava ao restauro e comércio de antiguidades, além de ser dono do Madeira Bright Star Hotel, onde ficaram instalados alguns dos camaradas continentais que se deslocaram ao Funchal, aquando do Encontro da CART 2732, em 2010.

Aqui fica a nossa singela, mas sentida, homenagem a este camarada que agora nos deixa.

Funchal, Abril de 2010 - O Aires, de camisola encarnada, junto à Porta de Armas do nosso antigo quartel, assistindo ao reencontro do Silva e do Pires após 40 anos

Funchal, Abril de 2010 - Nesta foto, durante a visita às antigas casernas, o Aires em amena cavaqueira com um camarada da 2732

Funchal, 10 de Abril de 2010 - Já no Almoço/Convívio, o Aires à esquerda, em primeiro plano

Funchal, 18 de Março de 2012 - No Convívio/Comemoração dos 40 anos após o regresso da Guiné, o Aires, à direita, em conversa com um camarada da CART

À família do camarada Aires, apresentamos os nossos sentidos pêsames e a certeza de que jamais o esqueceremos

sábado, 24 de março de 2012

P41 - Convívio no Funchal no dia 17 de Março de 2012

Conforme estava planeado, realizou-se no passado dia 17 de Março, um convívio entre ex-militares da CART 2732 e respectivos familiares, no Funchal.

O número de presenças esteve aquém do previsto e do desejado, sendo notada a falta dos camaradas do continente, cuja presença se contou apenas por dois elementos: O António Casal e o Inácio Silva, sendo, no entanto, acompanhados por três familiares, cada um.

O convívio realizou-se no restaurante "Sun City", cujo gerente era conhecido de alguns dos nossos camaradas madeirenses, tendo-nos servido de uma forma agradável e satisfatória.

O Zeca e o Vieira apresentaram as boas vindas ao grupo e teceram umas palavras de apreço pela camaradagem demonstrada, e que se mantém viva, após o decurso de 40 anos do nosso regresso da Guiné.

Ao longo do jantar fomos acompanhados com música variada, tocada e cantada por um amigo madeirense, convidado pelos organizadores.

O estabelecimento de pastelaria do Alfredo foi o autor do bolo de aniversário, muito bem decorado com o símbolo do nosso blogue, tendo sido convidado para dar a primeira talhada, o nosso "comandante" ex-alferes António Casal, que quis repartir o gesto com os nossos camaradas Vieira e Zeca.

Seguiu-se, depois, um momento de Karaoke, com um brinde servido pelo representante do "Sun City", composto de uma poncha madeirense, durante o qual o Vieira, o António Casal e o Zeca nos surpreenderam com algumas músicas, por si cantadas, acompanhadas ao som do karaoke.

Foram tiradas algumas fotografias que deixamos aqui o link para poderem ser vistas por todos.

Apela-se aos camaradas que também tiraram fotos para que as façam chegar ao nosso blogue para que as possamos publicar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

P40 - Comemoração do 40.º aniversário da chegada da CART 2732 a Lisboa, a realizar no dia 17 de Março de 2012 na Ilha da Madeira

Hoje chegou ao nosso Blogue uma mensagem do nosso camarada José Manuel Rodrigues Vieira com os primeiros pormenores para o Almoço/Convívio comemorativo do 40.º aniversário da chegada da madeirense CART 2732 a Lisboa.

A organização deste Encontro a nível nacional está a cargo de um grupo de camaradas madeirenses, cujo porta voz é o Vieira e terá lugar na bonita Ilha da Madeira no próximo dia 17 de Março de 2012 (sábado). O almoço decorrerá em Porto Moniz depois de um pequeno périplo pela parte oeste da Ilha.



PROGRAMA

Dia 17 de Março, sairemos do Funchal pelas 09.00 horas em direcção ao "Cabo Girão" (tanto quanto sei o segundo promontório mais alto da Europa) pela estrada antiga, onde ficaremos cerca de 20 minutos para "apreciar" a vista e tirar fotos. Depois continuaremos, sempre na estrada antiga, em direcção à Ribeira Brava, com passagem pela vila, depois subimos a Encumeada onde pararemos no cimo (20 minutos) para uma "poncha", após o que seguiremos para o Paúl da Serra, fazendo uma paragem (20 minutos) no miradouro do Rabaçal. Continuaremos depois em direcção à Santa e Porto do Moniz onde devemos chegar por volta das 13.00 horas para almoço no restaurante "Gaivota".
Por volta das 15.30 horas partiremos para Santana através do Seixal, São Vicente, Ponta Delgada, Boa Ventura, Arco de São Jorge onde visitaremos as cabanas, (20 minutos) continuando depois para São Jorge, Santana, Faial, Porto da Cruz, Machico e Funchal, onde contamos chegar pelas 19.00/19.30 horas.

Anexo seguem os mails da composição/preço da refeição, bem como o custo do autocarro para a volta do "passeio".
Naturalmente convirá que a "malta" interessada neste convívio e que possa vir cá, chegue na Sexta-Feira, dia 16 e parta no Sábado ou no Domingo. Mas se quiserem ficar mais algum tempo para nós melhor, é com muito gosto e... a região agradece.

Só espero que o tempo esteja bom, ou pelo menos razoável para podermos usufruir do prazer das nossas belas paisagens (ainda existem algumas) e de todo o ambiente de camaradagem que envolve um evento desta natureza.
Enviarei toda esta informação ao Pedro para ele contactar os camaradas em Lisboa.

É de toda a conveniência que o "pessoal" que quiser participar se pronuncie até ao dia 10/12 de Março para contactarmos as entidades envolvidas com devida antecedência e assim planearmos o evento atempadamente para que tudo decorra normalmente.

De momento é tudo.
Um abraço
José Vieira


Mensagem da Sociedade de Automóveis da Madeira:

Boa tarde!
Exmo. Sr. José Vieira,

No seguimento da nossa conversa venho informá-lo que a cotação para o serviço pretendido a realizar com um autocarro de 53 lugares, é a seguinte:

½ Volta à Ilha – € 350,00
Volta à Ilha – € 420,00

Os valores apresentados já incluem IVA.

Ficando a aguardar as suas notícias, apresento os meus cumprimentos.
Luís Basílio
Sociedade de Automóveis da Madeira (SAM), Lda.
Caminho do Regedor – Nazaré
9000-096 Funchal
luis.basilio@sam.pt
Telef. + 351291706714 / Fax + 351291775207
Telemóvel – 911035584


Mensagem enviada a Apartamentos Gaivota - Porto Moniz

Muito boa noite Srª. D. Maria.
Conforme nossa conversa de há pouco, abaixo discrimino a composição da "ementa" - almoço -, para um grupo de ex-combatentes de guerra do Ex-Ultramar Português, solicitando-lhe a informação do preço por pessoa. Um ou dois dias antes do evento, fornecer-lhe-ei o total de pessoas presentes no mesmo, bem como a quantidade aproximada de pratos das várias especialidades a serem servidas na modalidade "buffet".

Assim temos:

Entrada
Um aperitivo - whisky, vodka, martini, sumo ou outro, acompanhado de uns pratinhos de polvo, atum e gaiado seco em escabeche, rissóis, chouriço, etc.

Almoço
"Buffet" de filete de espada, bife de atum, costeleta de porco, bife de vaca, acompanhado do habitual, arroz, batata frita, cozida ou salteada, verduras diversas.
Vinho engarrafado de qualidade média, tipo "Monte das Ânforas, Borba, etc.

Sobremesa
Pudim, salada de fruta, gelado, etc
Café e digestivo.

Devo alertar que em virtude da idade dos elementos, alguns, por razões de saúde, certamente não tomarão álcool, nomeadamente "bebidas brancas".
Fico aguardando a vossa resposta
José Vieira


Resposta:

apartamentosgaivota@sapo.pt
Boa tarde, o preço por pessoa e de 15€ por pessoa


Assim, fica dado o primeiro passo para a comemoração dos 40 anos do regresso da CART 2732.

Os interessados em participar poderão contactar:

- o nosso camarada Vieira para o seu endereço mr.josevieira@gmail.com ou para o seu telemóvel 962 474 625
- o nosso blogue cart2732@gmail.com
- ou carlos.vinhal@gmail.com

É de toda a conveniência que as inscrições se façam até ao dia 10, mais tardar 12 de Março.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

P39 - As nossas datas (6): Em 17 de Janeiro de 1972 a CART 2732 completou 21 meses de comissão

No dia 17 de Janeiro de 1972, já lá vão 40 anos, a CART 2732 completava 21 meses de comissão no CTI da Guiné e quase o mesmo tempo de permanência em Mansabá.

Esta localidade que fazia parte da região do Oio, a poucos quilómetros do Morés, era muito importante estrategicamente porque além de estar situada no eixo rodoviário Bissau/Mansoa/Farim, dela partia uma picada para Bissorã (a oeste) e outra para Bafatá (a leste), ambas não utilizadas regularmente. Que me lembre só uma vez a CART fez o percurso Mansabá/Bafatá, e volta, em coluna auto, e na picada para Bissorã só se transitava a pé.

 Mapa com a área da Zona de Acção da CART 2732
Com a devida vénia a Luís Graça & Camaradas da Guiné

O itinerário Mansoa/Farim estava alcatroado só até ao Bironque, completando-se o tapete até à margem esquerda do Rio Cacheu, em frente a Farim, no nosso tempo. Este trabalho trouxe-nos alguns dissabores como ataques sucessivos ao aquartelamento e às frentes de trabalhos, assim como operações e emboscadas muito para além do que competiria em caso de quadrícula normal.

Atendendo ao esforço a que a CART foi sujeita, foi-nos prometido algum tempo de recuperação, em zona de paz, antes do fim da comissão, promessa nunca cumprida.
Só no dia 8 de Fevereiro de 1972 foram para Bissau os primeiros dois Grupos de Combate da CART, no dia 23 os restantes dois e o Comando a 25. Efectivamente a CART permaneceu em Mansabá 22 dos 23 meses que durou a sua comissão. Um sacrifício exigido a uma Unidade esforçada e composta maioritariamente por valorosos militares oriundos da Madeira.

Em Bissau, a CART manteve alguma actividade operacional até à data do regresso.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

P38 - As nossas datas (5): Lembrando o nosso camarada José do Espírito Santo Barbosa, falecido no dia 14 de Dezembro de 1971

Hoje, dia 14 de Dezembro de 2011, faz 40 anos que faleceu no Hospital Militar n.º 241 de Bissau, vítima de ferimentos recebidos em combate no dia 6 de Dezembro de 1971, durante uma emboscada a uma coluna auto, o nosso camarada José do Espírito Santo Barbosa, Soldado Atirador, solteiro, natural da freguesia de Boaventura, concelho de S. Vicente, Madeira.

Desse dia lembramos que no P3 - FACTOS E FEITOS MAIS IMPORTANTES DA CART 2732 se pode ler:

Em 06DEZ71, pelas 11h15, 1 GCOMB (+) e 1 SEC MIL.ª 253 efectuou coluna auto a Mansoa a fim de transportar militares. No regresso, em MAMBONCÓ-3 F2 56 foi emboscado por grupo IN estimado em 50 elementos armados de RPG, granadas de mão, armas automáticas e morteiro 82, durante 20 minutos. O IN instalado a 2 metros da estrada atacou as viaturas com RPG e granadas de mão tendo vários elementos IN chegado ao alcatrão no intervalo das viaturas. As NT reagiram pelo fogo com todas as armas obrigando o IN a recuar. De Cutia, assim como de Mansabá e a FAP apoiaram as forças emboscadas. As NT sofreram 1 morto (Soldado Vieira), 11 feridos graves evacuados para o HM241 de Bissau, dos quais 2 morreram, 9 feridos também evacuados e 8 feridos ligeiros, 1 Unimog 404 e 1 Unimog 411 destruídos. Um dos feridos que acabaram por morrer no HM241 foi o Soldado José do Espírito Santo Barbosa.

O nosso camarada Barbosa foi louvado a Título Póstumo por S. Ex.ª o Brigadeiro Comandante Militar do CTIG.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

P37 - As nossas datas (4): Lembrando o nosso camarada Manuel Vieira, falecido no dia 6 de Dezembro de 1971

Hoje, dia 6 de Dezembro de 2011, faz 40 anos que faleceu em combate o nosso camarada Manuel Vieira, Soldado Atirador, solteiro, natural da freguesia de Arco da Calheta, concelho da Calheta, Madeira.

Desse dia lembramos que no P3 - FACTOS E FEITOS MAIS IMPORTANTES DA CART 2732 se pode ler:

Em 06DEZ71, pelas 11h15, 1 GCOMB (+) e 1 SEC MIL.ª 253 efectuou coluna auto a Mansoa a fim de transportar militares. No regresso, em MAMBONCÓ-3 F2 56 foi emboscado por grupo IN estimado em 50 elementos armados de RPG, granadas de mão, armas automáticas e morteiro 82, durante 20 minutos. O IN instalado a 2 metros da estrada atacou as viaturas com RPG e granadas de mão tendo vários elementos IN chegado ao alcatrão no intervalo das viaturas. As NT reagiram pelo fogo com todas as armas obrigando o IN a recuar. De Cutia, assim como de Mansabá e a FAP apoiaram as forças emboscadas. As NT sofreram 1 morto (Soldado Vieira), 11 feridos graves evacuados para o HM241 de Bissau, dos quais 2 morreram, 9 feridos também evacuados e 8 feridos ligeiros, 1 Unimog 404 e 1 Unimog 411 destruídos. Um dos feridos que acabaram por morrer no HM241 foi o Soldado José do Espírito Santo Barbosa.

O nosso camarada Manuel Vieira foi louvado a Título Póstumo por S. Ex.ª o Brigadeiro Comandante Militar do CTIG.

O estado em que ficou o Unimog da CART 2732, danificado na emboscada à coluna do dia 06DEZ71, durante a qual foi ferido mortalmente o nosso camarada Manuel Vieira

Nota: - Pede-se a quem tiver uma foto onde esteja o camarada Manuel Vieira por favor de a enviar para o Blogue para ser publicada neste Post

sábado, 12 de novembro de 2011

P36 - O grande ataque a Mansabá no dia 12 de Novembro de 1970

Por Inácio Silva

Inácio Silva com a sua Breda no abrigo da Mancarra

Durante os 23 meses de permanência em Mansabá, todos os dias, a qualquer hora, era possível verificar-se um confronto, repentino e inesperado, entre as forças do PAIGC e as nossas tropas, onde quer que elas estivessem: fosse numa operação militar programada, numa batida de zona, numa saída para o mato, à noite, numa coluna militar ou quando estivéssemos no quartel, acordados ou a dormir. Fosse, ainda, com a colocação de minas antipessoais ou anticarro, nos trilhos ou estradas por onde haveríamos de passar.

Estado em que ficou a Enfermaria.

Foram setecentos dias, dezasseis mil e oitocentas horas de permanente e absoluto alerta, com os olhos e ouvidos bem abertos, tentando perscrutar um movimento suspeito, um barulho, um estrondo, numa vasta área de mato, floresta e bolanha, em todo o perímetro do Quartel.
Diga-se, em abono da verdade, que a iniciativa dos ataques, partia, geralmente, dos homens do PAIGC, já que as tropas portuguesas estavam sediadas nos quartéis, cujas localizações eram suas, sobejamente, conhecidas, sendo, portanto, relativamente fácil localizá-las e desencadearem ataques às nossas guarnições.
A nós competia ocupar o território e defender as populações e as autoridades administrativas. Ao PAIGC competia marcar a sua presença em todo o território da Guiné, exercendo a guerrilha, lançando ofensivas, sem data nem hora marcadas, tentando causar baixas nas tropas portuguesas, com o objectivo de as desgastar e desmoralizar.

Num desses dias de 1970 (12 de Novembro), pelas 19H30, eu e alguns camaradas, após o jantar, já noite escura, temperatura amena, subimos, como habitualmente, para a cobertura do abrigo designado por Mancarra, para passar o tempo, o mais descontraidamente possível, até que o sono chegasse, estabelecendo, entre nós, diálogos aleatórios ao sabor de temas, ao acaso.

A minha maior preocupação eram os mosquitos que me rodeavam insistentemente, que se atiravam a mim como gato a bofe, não parando de me autoflagelar com palmadas para evitar que me picassem, a maior parte das vezes, em vão.
Sem conseguirmos ver nada que estivesse para além da periferia do quartel, a vinte metros de nós, cercada de arame farpado e iluminada pela energia produzida por um gerador, alimentado a gasóleo, cujo barulho era audível no local, de repente, a iluminação apagou-se. Tratava-se, sabíamos nós, de um procedimento habitual, pois era necessário fazer descansar aquele gerador e colocar outro em funcionamento.

Já não me lembro durante quantos segundos é que estivemos às escuras; penso que não terá ido além dos 30 ou 40 segundos. Nesse hiato decidi, sem nenhuma razão aparente, vociferar impropérios, na direcção do fosso negro, de nossos pés, até à mata.
O som das nossas vozes emitido, em absoluto silêncio nocturno, era perfeitamente audível a algumas centenas de metros. Fui acompanhado por outros camaradas, na mesma ladaínha: - Está na hora, seus filhos da p..., ataquem agora, aproveitem, seus cobardes.
Estas frases iam sendo repetidas, enquanto se vivia aquele momento de absoluta escuridão.

Alguns dos camaradas presentes nesta foto dormiam no abrigo da Mancarra, localizado nas suas costas. Inácio Silva sentado e encostado ao mini monumento que os defendeu dos estilhaços dos morteiros. A seta indica o sítio onde estavam quando começou o ataque.

Ainda estávamos naquele exercício provocatório, quando, inesperadamente, rompeu da escuridão, na nossa direcção, uma rajada de Kalashnikov (PPSH), conhecida por costureirinha pelo som característico, estridente que provocava, dando uma sensação de proximidade, seguida de lançamento de granadas de morteiro.
De imediato, saltámos da cobertura do abrigo, para o solo, tendo caído, nesse momento, três granadas de morteiro, perto de nós. A sorte esteve connosco, uma vez que as granadas caíram e rebentaram por detrás de um pequeno monumento, erigido pelos camaradas da Companhia que ali estivera antes de nós, a CCAÇ 2403, protegendo-nos.

Os círculos indicam os buracos feitos pelas três granadas de morteiro que marcaram o início do ataque.

Num ápice, o potencial de fogo por parte do PAIGC, originário de uma larga zona, em meia-lua, desde a pista de aviação, em terra batida, até ao abrigo da Mancarra, aumentou, atingindo várias zonas do quartel. Era possível ouvirem-se tiros de espingarda, de metralhadoras, e rebentamentos de granadas de morteiro, de RPG2 e de canhão sem recuo...
Percebi, logo, que estávamos em presença de uma grande operação militar do PAIGC que, das duas uma: ou respondíamos de imediato e com os todos os meios ao nosso alcance, ou poderíamos assistir a uma invasão das nossas instalações, com todas as consequências desastrosas que isso implicava.
Cada um dos camaradas que ali se encontravam, se dirigiu para o seu posto de combate e de defesa das instalações. Todos os postos avançados começaram a reagir àquele incessante matraquear mortífero: as nossas, espingardas G3, metralhadoras pesadas, metralhadoras ligeiras, morteiros 81mm e os obuses, em uníssono, desempenharam um papel absolutamente imprescindível na nossa defesa e foram, sem qualquer espécie de dúvida, a nossa salvação.

No referido abrigo da Mancarra, a meu cargo, estava uma metralhadora pesada BREDA, alimentada por lâminas de vinte balas de 8x59mm, mal posicionada em relação à frente de fogo inimiga. Havia que a deslocar para a posição correcta, sendo necessário dois militares para o efeito. Porém, o seu municiador, já há alguns dias que estava doente, acamado na enfermaria do quartel e eu encontrava-me, ali, sozinho.
Por segundos, fiquei sem saber o que fazer. A primeira reacção foi rodar a metralhadora, o máximo possível, para a frente de fogo inimiga, dando indicação aos atacantes de que a minha zona estava protegida.
Efectuei vários disparos, lâmina a lâmina, até que a BREDA encravou! Preocupado com a ausência de fogo naquele posto, recolhi todas as espingardas G3 dos camaradas que haviam saído para guarnecer os seus postos de combate e trouxe-as para junto de mim.
Tiro a tiro, fui descarregando as várias G3, mantendo, ali, uma presença de fogo. Ao dar o último tiro, fui confrontado com novo dilema: o que fazer a seguir? Abastecer os carregadores das G3 ou tentar desencravar a metralhadora e mudá-la para a frente de fogo? Qualquer destas tarefas implicaria numa paragem, absolutamente desastrosa, incompatível com a situação que estávamos a viver.
A tremer de medo, por pensar que poderia ser apanhado à mão, pelo inimigo, decidi desmontar a metralhadora. Ainda muito quente devido aos disparos a que foi sujeita, queimei as mãos ao desmontar a parte frontal, onde se encontra o cano e, esforcei-me, sem condições, por levá-la para a melhor frente de fogo. Colocada nova lâmina, lá recomeçou a funcionar. Depois, muitas outras se seguiram. Os meus dedos polegares, de empregado forense, já não conseguiam suportar as dores provocadas pelo trepidar dos disparos. Olhei para eles e vi que estavam duas enormes bolhas de sangue.

Continuei, apesar de tudo...

O meu posto era fixo e estava denunciado. De repente, oiço um assustador estrondo, acompanhado de uma labareda e de uma luz intensa, que me deixa absolutamente atordoado, surdo, a zumbir, parecendo que o couro cabeludo iria saltar. Fico sem reacção. Sinto uma impressão no meu sobreolho direito, passo a mão e o sangue anuncia um ligeiro ferimento. Nada de grave, felizmente. Era mais grave o meu estado de espírito e a minha desorientação devido ao gigantesco estrondo, amplificado pela caixa de ar onde me encontrava! Parecia encontrar-me numa gruta com milhões de morcegos a farfalhar.
Pensei! É agora que vou ser apanhado. Estava só e indefeso. Confiava nos meus camaradas que, algures, estavam a reagir estoicamente àquele gigantesco ataque. Não se ouviam vozes nem gritos, apenas os estrondos das bombas. Parecia ser o apocalipse!

Passaram-se quarenta e cinco longos minutos até voltar o silêncio! Havia que recompor as forças e o estado de espírito. Ver os estragos, abastecermo-nos de munições e preparar as armas para novo eventual tiroteio. Em teoria, ele poderia ocorrer noutra frente, no momento imediato!
Para acalmar, psicologicamente, as nossas tropas, o Comando Geral, enviou um bombardeiro T6, que sobrevoou, algumas vezes, as supostas zonas onde o IN se havia posicionado para atacar, certamente, já em debandada.

No dia seguinte, logo pela manhã, quis saber o que havia causado aquele estrondo que me tinha deixado prostrado. Foi uma granada de RPG, lançada pelos militares do PAIGC, na direcção das chamas da BREDA, que embateu na parede do abrigo, junto ao vértice inferior direito da fresta onde trabalhava a metralhadora, rebentando a cerca de um metro de mim.

É possível ver no círculo, o desbaste da parede efectuado pelo impacto e rebentamento da granada. Foi por um triz que ela não penetrou no abrigo.

Feito o balanço, verificou-se ter havido um morto e quatro feridos nas tropas portuguesas (milícias locais) e 14 mortos e 45 feridos, na população.
Quanto aos estragos materiais, é de referir a destruição da enfermaria, de uma caserna e de algumas casas da população.

No que a mim diz respeito, trago comigo, até hoje, uma deficiência auditiva provocada pelo referido rebentamento, revelada em todos os exames audiométricos que efectuei (mais de uma dezena), no âmbito da Medicina do Trabalho da minha empresa, caracterizada pela impossibilidade de discernir determinadas gamas de frequência, situação que é totalmente desconhecida das entidades militares, não fazendo, pois, parte das estatísticas.

Pergunta-se, agora, porquê tudo isto?

O ser humano é único: pensa, ama, odeia, ri, chora, raciocina mas, por vezes, lamentavelmente, reage irracionalmente... e a guerra é um acto irracional!

domingo, 6 de novembro de 2011

P35 - Como fui a Fátima a pé, comandando a CART 2732

Por Jorge Picado

Quinta-feira, 25MAR71
Tinha-me deslocado novamente a FARIM, para ver se convencia o “Chefão” a deixar-me seguir para TEIXEIRA PINTO, argumentando que o verdadeiro Comandante da CArt tinha entrado de férias e, portanto, podia muito bem ser substituído pelo subalterno mais graduado, como era habitual e tinha assim sucedido na “minha” anterior CCaç, tal como acontecia em todas as outras.
Voltou a dar-me “com os pés” e eu, como resposta, com a determinação de fazer cada vez o menos possível, ao mesmo tempo que contactei com o Comandante do CAOP, manifestando-lhe a apreensão que sentia por tal atraso em ocupar o lugar. Da minha parte havia pelo menos duas razões para tal apreensão:

a) dado o CAOP ser uma estrutura com um peso muito importante na manobra militar do GG e ComChefe, temia vir a perder o lugar, se entretanto não o ocupasse;
b) por outro lado, quanto mais tardasse a sair daquela situação, tanto mais riscos me sujeitava a correr.

Houve de facto contactos e isso mais deve ter acirrado o dito Major.
Deixei de ir para a estrada, permanecendo mais no quartel, mas, o “Fulano”, tratou de me meter em actividade.


ACÇÃO URTIGA NEGRA
Segunda-feira, 29MAR71
A vingança do Major executou-se, friamente.

Neste princípio de semana e talvez para me “castigar”, enviou-me para o mato, não para aquelas “tarefas” de segurança próxima aos trabalhos da estrada como até aí, mas para participar numa acção cujo nome de código não era nada agradável – URTIGA NEGRA – duas palavras com um certo significado “malévolo”.
Se não vejamos: “Urtiga” – nome de planta que possui como órgãos de defesa uns pêlos que injectam um liquido irritante na pele de quem lhes toca, provocando urticária – “negra” – palavra que se pode associar a algo nefasto – o que, convenhamos, não era nada animador associado ao objectivo da operação.

Mas esta palavra era consequência do Plano de Operações existente para as forças do sector a Sul do Rio Cacheu enquadradas no COP 6, que se chamava “FAIXA NEGRA”, dando depois lugar às Directivas Operacionais e às Ordens de Operações que teriam sempre de se chamar qualquer coisa “negra” e, as “urtigas”, foram várias (pelo menos em 24ABR71 executou-se a XXIX).

A CArt 2732, como era uma unidade de “quadrícula” e a ZA tinha sido reforçada com outros meios, tinha uma missão mais destinada à segurança da povoação e da estrada e, era menos utilizada para outras acções de maior envergadura. Estas eram destinadas às forças “de reforço” para estes fins – Páras e julgo que a CCaç do K3 – enquanto que as restantes – subunidade de Cavalaria e de Artilharia – tinham por missões respectivamente, fornecer protecção às colunas auto nos seus deslocamentos em estrada e, os obuses, naturalmente em posições fixas, apoiarem com fogo pesado sempre que solicitados. Isto em termos muito gerais.
Destinaram-me, pois, uma ida a FÁTIMA a pé, neste dia, como Comandante do Agrupamento (Agr) A.
Só por analogia digo isto, já que este vocábulo não tem nada a ver com o da povoação portuguesa. Este da Guiné e, numa região habitada por Fulas e Mandingas – povos islamizados – seria sem dúvida de origem muçulmana, já que este é o nome da filha de Maomé.

Nota: Na Carta (folha de Binta) existe assinalada uma “povoação de tipo indígena, dispersa, com 10 a 50 casas”, a cerca de 500 m a Oeste do itinerário OLOSSATO (povoação)-OLOSSATO (vértice geodésico secundário) no encontro da estrada MANSABÁ-FARIM.
Localização de Fátima na Carta de Binta, com a devida vénia ao Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.

Tendo por base as recordações que ainda guardo na memória, procurarei descrever aquela acção, tanto quanto possível mais conforme com o que se passou e que, como é evidente, não podia constar da descrição oficial. Há passos que gostava fossem melhor concretizados por ex-camaradas que nela participaram e que poderiam até corrigir deficiências minhas, mas há lembranças que permanecem quase intactas.
Conjuntamente com o Agrupamento A que comandava saiu uma força (Pel?) de Pára-quedistas – Agr? – comandada por um Tenente (?), efectuando-se o percurso apeado pelo mato, em conjunto, até ao ponto referenciado no relatório como “ponta da Bolanha de BERECODIM”. Uma vez aí, separámo-nos, prosseguindo na direcção Oeste pelo lado Norte da Bolanha, enquanto eles a contornariam pelo lado Sul, julgava eu, já que não tinha conhecimento das suas directivas.

Ao separarmo-nos nessa posição, olhando para o relógio terei dito ao Tenente algo como:
- Então até daqui a "n" minutos - isto porque, de acordo com o determinado na alínea “Transmissões”, da Ordem de Operações, era indicado o intervalo de tempo, em minutos, para o estabelecimento de contacto via rádio entre os 2 Agr, bem como entre estes e o PCA onde estaria o Cmdt do COP.
Só que o “nosso” Major, enquanto os “pedestres” tinham iniciado o percurso às 6H30, subiria para um DO – PCA – já com a manhã bem alta e, sobrevoando a zona, dirigiria “o circo” mais ou menos do seguinte modo – “ siga para ali… vire para aqui… agora em frente… marche… não recue…” –, lá de cima, bem folgado e resguardado da situação real de fogo que porventura acontecesse, enquanto os tais “pedestres”, já bem cansados a essa hora, teriam de desempenhar o difícil papel de “heróicos defensores da pátria”, mas duma pátria que não era seguramente a sua.

- Não é possível, meu Capitão, estou sem comunicações rádio - foi a resposta obtida para meu espanto.
- Como? - retorqui.
- Os rádios avariaram - voltou ele, com uma cara meio estranha.

Só passados mais uns segundos se fez luz no meu cérebro e, talvez com cara de parvo, por necessitar de duas respostas para momentaneamente voltar à realidade, lembro-me que, meio encabulado, tentei emendar a situação dizendo algo como:

- Este material deveria ser substituído, o nosso também não está em boas condições.

Desde logo havia aqui algumas lições a extrair desta situação.
Primeiro que tudo, a “nossa” guerra – da maioria dos Oficiais do QC e de já grande número de Oficiais do QP pelo menos até ao posto de Capitão – não era seguramente a mesma da do Major.
Pena que tivesse de aprender isso com um Oficial subalterno do QP e duma arma de elite, Pára-quedista.
Mas porquê um Oficial destes a dar-me tal lição?

Talvez por:
a) não tolerar ser enviado para Operações com um Comandante que o não acompanhasse no terreno, preferindo antes a comodidade dum PCA em que se encontrava livre de perigo. Como subalterno de tropas especiais, habituado a actuar em situações de elevado risco, com os “seus” comandos ao lado e não refugiados num meio aéreo, também não gostavam muito de ser “usados” como “caçadores de troféus”, para vanglória de quem não os merecia;
b) ou, sabe-se lá, estar já “tocado” por outros sentimentos…

Depois da operação fiquei sempre com a dúvida: “Será que ele prosseguiu ou mais à frente escolheu um bom lugar à sombra e aí ficou a fazer horas até ao regresso?”. A verdade é que, não tendo convivência com ele, pois mantinham-se aquartelados à parte, não se misturando com a chamada “tropa macaca”, nunca pude aflorar o assunto. Mas em matéria tão delicada, não creio que obtivesse uma resposta verdadeira.
Em segundo lugar, a minha reacção demonstrava o modo alheado como me deslocava naquelas circunstâncias... para não sofrer qualquer ataque de “histeria” e ficar amalucado. Só assim se admite que não tenha compreendido imediatamente o sentido da primeira resposta.
Afinal não tinha acabado de chegar da Metrópole! Já não era pira!
Estava há 14 meses no TO e já tinha visto muita coisa.
Verdade seja que aqui me “drogava” mais, bebendo muito mais uísque e possivelmente, como ia para uma operação donde poderiam ocorrer mais riscos, antes de sair talvez me tivesse precavido com uma boa dose, para ir mais afoito…
Também a desculpa que alvitrei sobre o material assentava num facto concreto. A realidade é que o material usado – e não era só o de transmissões, mas a generalidade – era obsoleto, pois na grande maioria era uma herança ainda da II Guerra Mundial e estava constantemente a “dar barraca”, como se dizia.
O que é certo é que, naquela operação, a partir daquele momento dei ordens ao operador – seria soldado ou cabo (?) – das Transmissões, que carregava o rádio às costas e me precedia na coluna, para manter só a recepção…
Pouco tempo antes do contacto com o IN, começou a ouvir-se o barulho do avião sobrevoando a área, de certeza a uma altitude bem confortável para melhor garantia de segurança e, pouco depois, a tentativa de estabelecimento de contacto via rádio do PCA com qualquer das forças. Bem se esforçava porém o Cmdt com os seus apelos, mas as respostas eram… nenhumas.
Isto também era possível, felizmente, dadas as condições do terreno em que nos deslocávamos. Tratava-se de floresta povoada por espécies arbóreas de grande porte e mato de espécies sub-arbóreas muito denso, formando um coberto cerrado que, nem nos deixava ver o céu, nem permitia a quem de cima nos sobrevoava, ver-nos.
Sempre à escuta, ia aguardando por qualquer resposta dos Páras, mas como deles, “nem novas, nem achados”, quem era eu?
Afinal, dos dois Agr, quem eram os melhores preparados para a guerra? Não eram os Páras? Se tinham desaparecido… seria justo que fossemos nós a arcar com todas as consequências?... e pouco depois as circunstâncias quase me obrigavam a isso, já que as rajadas de G3 surgiram quase inesperadamente.
A situação não se desenrolou tão sucinta e friamente como se descreve no relatório, pois que, à medida que caminhávamos para Oeste, mais vigilantes e cautelosos nos íamos tornando, principalmente depois de atravessar o tal “trilho largo e muito batido”.
Era talvez uma faixa – e não um trilho – de 4 a 5m de largo, sem arvoredo cerrado e falho de mato, não verdadeiramente a céu aberto, mas donde se vislumbravam nesgas dum céu bem azulado àquela hora do dia e com a terra toda calcorreada, cheia de pegadas, a maior parte antigas, mas possivelmente algumas recentes.
Estendia-se no sentido Norte-Sul e foi atravessado com prudência, de acordo com os procedimentos militares para estes casos como às vezes se vê nos filmes de guerra…
Do lado oposto ao da nossa procedência é que se detectaram pegadas indicativas de passagem de pessoas, que obrigaram ao reconhecimento e a abandonar a chamada “fila de pirilau”. Preparámo-nos para evitar ser surpreendidos por qualquer emboscada.
Com o GComb da frente comandado pelo Alf Casal seguia uma secção de Milícias que creio terem sido eles quem primeiro disparou, quando menos se esperava.
Passados segundos (?)… minutos (?)… como não houve reacção procurei, sempre rastejando ou de “gatas”, chegar-me mais à frente à fala com o Alf, sempre com o soldado-rádio atrelado.
Uns metros à frente, junto a umas palmeiras com ralos arbustos, vi de relance umas esteiras, dois corpos escuros estendidos, uns soldados e milícias – nem sei quantos – a recolher objectos e a pesquisar o mato para além das palmeiras. Tudo aquilo foi muito rápido e, quando voltaram, disseram que os vultos estavam mortos e havia quem tivesse fugido para Oeste, mas não sabiam precisar quantos.
Mandei então prosseguir na sempre na direcção Oeste e, pouco depois, entrámos na zona de alcance dos seus morteiros 82.
Reconhecemo-la logo, pois o solo estava estranhamente remexido, como se tivessem andado com uma enxada a abrir covachos para plantar qualquer coisa e não foi preciso andar muito, para que ouvíssemos o tão característico som abafado duma primeira saída de granada de morteiro, a que logo se seguiram as restantes.
Toca a sair dali, inflectindo na direcção Norte ou seria Este/Nordeste (?), para debaixo de mato cerrado novamente e, não com “os calcanhares a bater no cu”, mas em passo acelerado, só parando quando aquela música, das saídas e subsequentes rebentamentos das granadas ficaram bem para trás.
Neste ponto é que deve ter acontecido perder-se o “chamado norte”, isto é, ao entrar-se novamente debaixo de floresta cerrada e em andamento acelerado o rumo podia não ser bem o que suponhamos, até porque nem se usava qualquer instrumento de orientação, já que estávamos apenas dependentes da orientação definida pelos tais guias, por isso escrevi atrás “direcção Norte ou seria Este/Nordeste”, mas a partir daqui, continuar a seguir na direcção de Fátima, já não fazia sentido.
Qualquer efeito de surpresa tinha desaparecido.
O IN já estava no terreno preparando “recepção adequada” e entretanto aquela dúvida “mas por onde andam os Pára-quedistas?”, sempre a martelar-me a cabeça.
Entretanto com este “fogachal” todo, o PCA tentava entrar em contacto, mas como não havia problemas nas NT, mantivemos o silêncio rádio.
Após um pequeno alto, para recuperar forças e acalmar o nervoso miudinho, prosseguiu-se o patrulhamento e foi ao passar por uma “ilhota” de palhotas, já destruídas anteriormente pelo fogo, como os restos carbonizados demonstravam – destruição provocada pelo IN ou pelas NT (?) – que ainda encontrámos o milho-miúdo armazenado a quem deitámos fogo.
A emboscada foi montada depois de mais de hora e meia a palmilhar.

Durante esse intervalo, comentando com os alferes os acontecimentos, inclinámo-nos para a hipótese de que não seria grupo IN em movimento, mas simplesmente elementos do “tipo das milícias”, muito usados pelo IN como sentinelas ou guardas avançados dos seus locais de acantonamento que estivessem de serviço. Se assim não fosse, não tinham permitido que apanhássemos a espingarda e as granadas, nem nos tinham deixado prosseguir sem tentarem surpreender-nos, tanto mais que conheciam muito melhor o terreno e onde se movimentavam com maior à vontade. Quem escapou, 1… 2… 3(?) elementos, dissimularam-se, comunicaram, não sei como com a base onde existiam os Mort 82 (que mais tarde o Bravo Vítor Junqueira silenciou) procurando não se deixar apanhar, para mais tarde recolher os corpos que ficaram no terreno.
Quando chegámos à estrada para sermos recolhidos, então comecei a descomprimir e a pensar sobre o que me podia ter acontecido.
Até aí, vinha meio “entorpecido”: pelo nervoso; pelo cansaço; pelo medo de ser apanhado ou deixar apanhar o pessoal numa situação de maior gravidade, correndo riscos que ninguém valorizava e duma coisa tinha a certeza. Íamos sendo apanhados pelos seus Mort 82.
No quartel, depois dum banho de chuveiro retemperador, pensei ironicamente, sem nunca o ter revelado, nas partidas que o destino nos reserva.
Tinha sido necessário ir parar à Guiné, para quase, sem dar por isso, “ir a FÁTIMA a pé”!

Nota. Ao procurar reconstituir nas folhas, de Binta e Farim da Carta Militar entretanto conseguidas, o trajecto da operação face às coordenadas indicadas no relatório, deparo com um obstáculo. As coordenadas indicadas no relatório ou não batem certo ou já não sei trabalhar com a grelha.
Ainda que com bastantes dúvidas, posso tentar delinear um certo percurso mais ou menos virtual.

Assim, o ponto de início (PI) na estrada situar-se-ia entre 1 a 2km a Norte do vértice geodésico Bironque e a pontada bolanha está bem identificada.

Na carta estão indicados vários “caminhos indígenas” saindo de SOLINTO. É evidente que naquela época todas as povoações como essa, BERECODIM e BERECOBÁ, estavam desabitadas e estes “caminhos” estariam com certeza recobertos de mato, mas é provável que o “trilho largo” e o “carreiro” do relatório se situassem entre o 1.º e o 2.º “caminho” desta carta (onde coloquei ??) e, o contacto deu-se numa zona de floresta e palmeiras depois disso.
O trajecto seguinte é que fica um pouco mais confuso, pois ainda avançámos após o contacto, entrando na zona de alcance dos Mort 82 e, só então, derivámos seguindo um rumo que, como descrevi pode estar “baralhado” e não ser o que julgava para Norte, mas sim mais Este/Nordeste, passando por uma “ilhota” de palhotas destruídas pelo fogo que podia ser a tal antiga “povoação de tipo indígena, cerrada”, denominada SOLINTO e onde encontrámos o milho miúdo que destruímos.
A quarta posição, onde se montou a emboscada, seria provavelmente num dos “caminhos indígenas” a Norte de BERECOBÁ, já que o ponto de recolha na estrada se aproximaria do ponto de partida.
Posteriormente, ao ultimar este relato, quando cheguei a esta parte – meados de FEV06 – procurei obter informações que me esclarecessem este tipo de identificação então usado, mas até ao momento – ABR06 – não consegui.

Apenas uns esclarecimentos sobre o "Comentário ao Relatório da Acção":
Quanto ao indicado no ponto 02 pelo "meu amigo" Comandante do COP 6 que foi escrito e assinado em 30ABR71, quando eu já me encontrava em Bissau, pois deixei a CART 2732 no dia anterior, dia 29 pelas 11H10m, possivelmente numa coluna via Mansoa e, de que só tive conhecimento no dia em que consultei os processos no AHM em Junho ou Julho de 2009, fiquei perplexo.
De facto, saber agora que revelei "espírito de decisão e iniciativa" até me faz "babar" de felicidade por ver reconhecido o meu "valor militar". E eu que me julgava "um falhado para tais artes". Se tivesse tido conhecimento disto naquela época, ainda era capaz de reconsiderar e pedir mais acções.
Ou seria que o "meu amigo" Comandante me quiz apenas recompensar, por não me ter deixado seguir para o CAOP 1 logo que recebi a colocação naquele Agrupamento? Com toda a certeza teve um rebate de consciência e resolveu compensar-me desta maneira.
E isto até chegou à REP OPER do COMCHEFE!!!
Jorge Picado

RELATÓRIO DA ACÇÃO "URTIGA NEGRA"





Jorge Picado
Ex-Cap Mil
Ex-CMDT da CART 2732

(Clicar nas imagens para ampliar e facilitar a leitura)

sábado, 1 de outubro de 2011

P34 - Como cheguei a Comandante da CART 2732

Com a devida vénia ao Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, publicamos parte de um texto e algumas fotos que o nosso ex-Comandante, Cap Mil Jorge Picado, enviou para aquele Blogue para publicação.


Como cheguei a Comandante da CART 2732

Por Jorge Picado

Sendo um individualista naquela guerra, uma vez terminada a Comissão do BCAÇ 2885 e, por conseguinte ter deixado o comando da CCAÇ 2589, esta sim a minha CCAÇ (ainda que tivesse ficado com a dúvida se os seus nativos me adoptaram ou não) em que permaneci durante 356 dias (24FEV70-15FEV71), apresentei-me no QG em Bissau com uma virtual corda ao pescoço a aguardar o enforcamento.
Ingénuo como sempre, sem conhecimentos pessoais naqueles corredores, quer do QG do CTIG quer do COMCHEFE, mas também sempre avesso a situações de favor (leia-se cunhas), nem o facto de ter encontrado no Clube de Oficiais um Major do Estado Maior mais velho, mas que reconheci por ter feito os estudos secundários no velho Liceu José Estêvão de Aveiro e creio que natural de Albergaria-a-Velha, colocado não sei em qual das Repartições desse QG, nem a ele resolvi recorrer para qualquer arranjinho na minha colocação. Aguardava serenamente que se apiedassem de mim por já ter experimentado um ano de mato e me concedessem o resto da comissão como férias em Bissau.
Mas durante esse período acabei por perder a ingenuidade e expurgar-me das razões éticas ou moralistas sobre as ditas situações de favor. Não tinha aprendido nada com a mobilização de 2 camaradas (do CPC e do ISA) que foram colocados em Bissau, que sempre me deixaram na dúvida, mas com o que ocorreu a seguir, aprendi.
Não tenho qualquer pejo de fazer estas afirmações, porque era o que sentia. O destino obrigou-me a vaguear por aquelas paragens contra a minha vontade. Obrigou-me a desempenhar papéis para os quais nunca senti o mínimo de preparação e muito menos vocação.
Apenas para que possam avaliar estas minhas confidencias acrescento esta nota muito particular. O meu saudoso sogro gastou dois anos a tentar fazer de mim caçador (arte lúdica de que ele tanto gostava, fornecendo-me todo o material em troca apenas da minha companhia nessas andanças) e teve de desistir antes de há terceira aselhice ficar com a filha viúva, mas que ironia, o Governo de então fez-me não só caçador, mas mais… comandante duma Companhia de Caçadores! E esta, hem? Como diria o falecido e conhecido Fernando Peça.

Quem tem amigos assim, não precisa de inimigos
Mas voltemos a Bissau.
Fiquei aboletado, não sei se era este o termo usado, num quarto (daqueles destinados aos oficiais em trânsito, como aliás tinha acontecido quando da minha chegada ao TO) das instalações do Clube de Oficiais.
Nesse mesmo quarto onde pernoitava, por infelicidade… ou talvez não, instalou-se igualmente pouco tempo depois o Capitão X (não me fica bem mencionar o seu nome, ainda que seja daqueles que até hoje nunca esqueci), do Quadro Permanente e Comandante da CART 2732. Como já éramos conhecidos em virtude da actividade do meu período anterior (fundamentalmente desde Novembro de 1970 com a protecção das colunas para Mansabá), naturalmente se estabeleceu o diálogo entre ambos.
Tinha vindo, não para tratar de assuntos da sua unidade, mas para consultas ao HM 241, no intuito, como honestamente me confessou, de tratar da sua saúde.
Assim, pela sua conversa e pelos cantos do Clube lá fui sabendo que havia vagas e até mesmo fora da capital mas num lugar calmo, como naquela época era o CAOP 1 em Teixeira Pinto onde faltava pelo menos 1 Capitão, admitindo eu não ser descabido mais uma vez sonhar com a fuga aos lugares de sofrimento. E o meu camarada de quarto ia-me animando.
Depois de regressarmos das nossas tarefas diárias matutinas, ele da sua deslocação ao Hospital Militar e eu da minha visita ao QG para receber novas sobre o futuro ou acompanhando o Alferes que me tinha substituído na Comissão Liquidatária (CL) da CCAÇ para o ajudar sempre que preciso (a esta distância ainda me causa uma certa indignação a forma como o Exército tratava os individualistas como eu.
Deixei de pertencer à CCAÇ no cruzamento da estrada Mansoa-Nhacra para o Cumuré, onde todo o BCAÇ se instalou até ao embarque, enquanto eu fui directamente para o QG, mas a responsabilidade até ao encerramento da CL continuava a ser minha, como já em Mansabá acabei por constatar!!! Foi outra guerra que tive de travar quase até ao fim da Comissão), era habitual encontrarmo-nos no quarto para uma banhoca antes do almoço e invariavelmente questionava-me:

- Então já tem colocação?
- Não. - Ia sendo a minha resposta.
- E o seu caso? - Indagava eu.
- Vai correndo bem…

A certa altura anunciou-me que para já… seria uma licença para tratamento… não regressando por enquanto ao seu posto…
Enfim, os dias iam correndo, mas como atrás referi esta minha Companhia tinha-me finalmente aberto os olhos, à cautela, e depois de saber quem comandava o CAOP 1 e que se encontrava de férias na Metrópole, abordei o assunto num telefonema para casa. Havia uma possibilidade, desde que um certo intermediário quisesse, de obter aquele lugar em Teixeira Pinto e dessa vez deitei fora todos os escrúpulos do recurso às cunhas.
Afinal não passava dum mero miliciano e sem vocação para tais artes militares e o exemplo do meu camarada de caserna liquidou a minha moralidade.

O Cap Domingos fica a conhecer o seu subtituto
O pior foi no dia 5 de Março, uma má sexta-feira, quando no QG me informaram que tinha sido colocado no DA, além do QO, indo em diligência para a CART 2732 substituir, durante o seu impedimento o respectivo Comandante.
Iam-me caindo os ditos cujos aos pés ao receber logo a respectiva Ordem de Marcha que me meteram nas mãos, para que não houvesse dúvidas.
E eu, que naquela altura já tinha recebido um feed back positivo de que a lança tinha sido metida e a resposta era favorável a uma ida para o CAOP 1, como depois se confirmou. Nem calculam o que mentalmente lhe chamei...
Ao chegar ao quarto e perante a cena do costume, quase sem o encarar só lhe respondi:

- Fui colocado na CART 2732. Sigo amanhã para Mansoa.

Fez-se silêncio. Nem sequer um pedido de desculpa ouvi. Saiu imediatamente como um foguete.
Desapareceu, nunca mais o vi, porque nessa noite não foi dormir ao quarto...
E assim fui comandar durante uns dias a CART 2732.

Junto algumas fotos dessa estadia.

Um abraço
Jorge Picado


Mansabá, 11 de Abril de 1971 - O nosso Capitão Jorge Picado festejou um dos seus aniversários em Mansabá. Nesta foto, da CART 2732, de pé: Alf Mil Bento, Cap Jorge Picado e Alf Mil Rodrigues; à esquerda, sentado no chão, Alf Mil Manuel Casal.

Mansabá, 13 de Abril de 1971 - Dia do batizado da filhota do senhor José Leal. O Cap Jorge Picado à direita da foto

Mansabá, 13 de Abril de 1971 - Dia do batisado da filhota do senhor José Leal. Jorge Picado segura a miúda juntamente com o pai.

Mansabá - Messe de Oficiais no tempo do Cap Mil Jorge Picado, na foto, de pé, ao centro.

(Fotos: Jorge Picado. Legendas: Carlos Vinhal)

Nota de CV:
O Cap Mil Jorge Picado comandou a CART 2732 entre o dia 8 de Março e o dia 29 de Abril de 1971