BLOGUE DESTINADO AOS COMBATENTES DA CART 2732, PARA QUE POSSAM RELATAR AQUI AS SUAS EXPERIÊNCIAS E DIVULGAREM AS SUAS FOTOS.
CAMARADAS, FAÇAM DESTA PÁGINA O NOSSO PONTO DE ENCONTRO
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
P77 - Votos de excelente 2022, especialmente, para a malta da CART 2732 (Carlos Vinhal)
No passado dia 31 de Dezembro de 2021 enviei à malta da CART 2732 de quem tenho o endereço de correio electrónico, a seguinte mensagem:
Caros camaradas
Penalizando-me por não ter enviado os meus votos de Feliz Natal aos meus amigos e camaradas de armas, aqui estou para vos desejar, assim como aos vossos familiares e amigos, um excelente 2022, especialmente com saúde, e a libertação final deste maldito "micróbio" que não nos desampara a loja.
Para todos vós a minha amizade.
Carlos Vinhal
À minha mensagem responderam, fazendo assim prova de vida: O senhor Coronel Carlos Abreu, Comandante do COP 6 em Mansabá, o Luís Marques, nosso Furriel Enfermeiro; os ex-furriéis Ismael Santos e Luís Pires do 1.º e/ou 2.º pelotões, e o Eugénio Branco, furriel da Artilharia.
Muito obrigado fico pela deferência da vossa resposta.
Por telefone ainda falei com: o Reis Pedro, nosso 1.º Cabo Auxiliar Enfermeiro, com quem vou falando ao longo do ano; o João Malhão, das Transmissões e com o Inácio Silva, o Ornelas e o Rodrigues Vieira, três estimados amigos, com os quais mantenho contacto regular, representantes dos nossos camaradas madeirenses.
Bom seria que, por qualquer dos meios que temos ao nosso dispor, nos mantivéssemos em contacto para irmos sabendo uns dos outros porque de vez em quando lá vem a triste notícia de mais um amigo que foi transferido para o batalhão celestial.
Aqui fica o repto
Abraço
Carlos Vinhal
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segunda-feira, 25 de junho de 2018
P55 - Reportagem fotográfica do Almoço/Convívio do pessoal da nossa CART 2732, levado a efeito, com organização dos nossos camaradas João Malhão e Reis Pedro, no passado dia 17 de Junho de 2018, em Minde (Fátima)
Foto de família dos participantes no Convívio, de 2018, do pessoal da CART 2732 e seus familiares
Graças ao esforço dos nossos camaradas João Malhão e Reis Pedro, no passado dia 17 de Junho concretizou-se mais um convívio do pessoal da nossa CART 2732, e respectivas famílias, desta vez em Minde (Fátima).
Um belo recanto da Quinta D. Nuno onde decorreu o Convívio
Os madrugadores: Ex-Alf Mil Casal; ex-Alf Mil Bento: ex-Cap Art Carlos Abreu (ex-CMDT do COP 6); ex-Sold Condutor Azevedo; ex-Fur Mil Mec Auto Dias e ex-Sold Condutor Dores.
Localizado mesmo a tempo de poder participar pela primeira vez em convívios da CART 2732, o nosso inesquecível Furriel Enfermeiro Marques
Já mais próximo da hora de almoço estão nas fotos: o Ex-Fur Mil CMD Mendonça e família; o ex-Fur Mil Ismael Santos e esposa; o ex-Cap Mil Jorge Picado e o ex-Alf Mil Francisco Baptista
E eis que chega o nosso operador de Transmissões, João Malhão, com a notícia de que a Operação não podia ser abortada. O almoço estava por minutos.
Os laços de amizade também se estendem aos familiares. Aqui a Isabel, esposa do Ornelas, com o Manuel Casal, visivelmente regozijados pelo reencontro.
Três ex-furriéis da CART 2732: Carneiro, Lourenço e Mendonça
Mesmo na sombra são bonitas as nossas bajudas
Carneiro, Dias, Dores e Azevedo
Jorge Picado e Francisco Baptista
Ornelas e Marques
Reis Pedro, um dos organizadores do Convívio, falando com a esposa do Carneiro que aparece na foto momentaneamente distraído
Uns sorrisos bonitos das companheiras do Vinhal, Ornelas e Inácio, respectivamente. De lado, a esposa do Casal
O ex-Cap Mil Jorge Picado abraça os seus ex-Alferes, Bento e Casal. Ao lado o ex-Alferes Baptista que veio posteriormente para a Companhia
O Mendonça, que passou pouco tempo na CART 2732, por ser ferido em combate e ter sido evacuado, fala com o Fonseca, quem sabe se disso mesmo.
Mesa da Presidência: Marques, Reis Pedro, João Malhão e Manuel Casal
Mesa da Presidência: à direita, o senhor General Artur Neves Pina Monteiro, até há pouco tempo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, que se fez acompanhar de sua esposa, também na foto, deu-nos a honra de presidir ao Convívio da CART 2732.
O senhor Coronel Carlos Abreu, à esquerda, em conversa com o senhor General Pina Monteiro
A mesa das nossas esposas
Nesta mesa: Vinhal, Carneiro, Ismael Santos, Mendonça e Fonseca...
... Dias e Ornelas...
... Fonseca, Lourenço, Dores e Azevedo
Nesta foto, onde lamentavelmente faltam o João Malhão e o Reis Pedro, ocupados a fazer contas no restaurante, e o Marques, em parte incerta, estão: fila superior: Carneiro, Azevedo, Ezequiel Filipe e Bento; fila do meio: General Pina Monteiro, Dias, Ismael Santos, Francisco Baptista, Manuel Casal, Coronel Carlos Abreu, Jorge Picado e Mendonça; fila de baixo: Ornelas, Dores, Inácio Silva, Lourenço, Matos, Fonseca e Vinhal
Aqui estão as nossas meninas, muitas delas já namoradas ou esposas no tempo da guerra
Entretanto chegado junto das Forças em Parada, o camarada Malhão, visivelmente emocionado, agradece a participação dos presentes.
Aqui fica, para memória futura, o devido destaque a estes dois camaradas que pensaram e levaram a efeito este Convívio. Muito obrigado, Pedro e Malhão.
Quem sabe, se lembrando os 50 anos do nosso embarque com destino à Guiné, que ocorre em 13 de Abril de 2020, nos voltemos a encontrar, desta vez no Funchal, de onde partimos no longínquo ano de 1970 para a nossa aventura africana.
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Fotos e legendagem: Carlos Vinhal
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sábado, 2 de agosto de 2014
P50 - Texto publicado no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
MEMÓRIAS DE MANSABÁ
NO DIA EM QUE MORRI
Carlos Vinhal
Domingo. Para fazer algo de diferente, sempre o que as actividades operacionais permitissem, era dia de vestir à civil, jogar ténis de mesa pela manhã e após o almoço dar um pequeno passeio pela tabanca. Às vezes até se batiam umas chapas para mandar à família e mostrar que a guerra não era aquilo que se dizia. Então não se via nas fotos?!
O pessoal da tabanca, acho que também se tinha adaptado aos nossos hábitos. As pessoas corriam em menor número à enfermaria civil e militar, e as nossas lavadeiras não entregavam roupa lavada. A população, pela manhã, assistia com respeito ao hastear da Bandeira Nacional em frente ao Posto Administrativo, cerimónia que só acontecia ao domingo. Os homens conversavam ou deambulavam pela tabanca ouvindo música ou os relatos de futebol da Metrópole, em alto som, como era hábito, naqueles portáteis enormes por vezes carregados ao ombro.
Depois de um almoço melhorado, bem regado com uma cervejinha geladinha, tomado o digestivo, normalmente um VAT 69 ou um White Horse, como era hábito lá fomos arejar o fato domingueiro.
Tínhamos aprendido na Doutrina que o domingo era dia do Senhor, dia de descanso, dia de paz e amor.
As diversas actividades quotidianas nem sempre permitiam o contacto directo com a população. Dois dedos de conversa aqui, um piropo a uma bajuda ali, por que não até uma inocente foto com algumas delas, e assim se ocupava algum tempo.
Naquele domingo, regressava o grupo já em direcção à porta de armas, ainda em plena avenida de acesso ao quartel, quem vinha de Cutia, quando rebenta um fogachal enorme.
O quartel estava a ser atacado em pleno dia, o que era extremamente raro.
Armas pesadas e ligeiras pareciam instaladas junto ao arame farpado, quando não, já do lado de dentro.
Começámos a correr o mais que podíamos em direcção aos nossos aposentos para nos armarmos e ocuparmos os nossos postos ou pura e simplesmente irmos para o abrigo mais próximo.
Lembro-me que ultrapassei a porta de armas, antecedido por uns quantos camaradas e, quando a escassos vinte metros da porta do meu quarto, situado precisamente no enfiamento da entrada do quartel, sinto um impacto violento nas costas.
Caio de bruços, curiosamente sem dores. Acho que se apaga uma luz ao mesmo tempo que sinto uma paz como nunca tinha sentido.
************
Sobressaltado, dou um pulo na cama e desperto.
Não era domingo, não era de dia, nem felizmente o quartel estava a ser assaltado.
Tento na escuridão verificar que o meu camarada Dias não se tenha apercebido do meu pesadelo. O silêncio reinava no quarto. Ainda bem.
Lá fora, na noite escura e misteriosa, alguns dos meus camaradas velavam pela nossa relativa segurança. Bem hajam.
Esperei acordado pelo romper do dia já que não mais consegui adormecer.
Carlos Vinhal,
ex-Fur Mil Art MA,
CART 2732,
Mansabá, 1970/72
NO DIA EM QUE MORRI
Carlos Vinhal
Domingo. Para fazer algo de diferente, sempre o que as actividades operacionais permitissem, era dia de vestir à civil, jogar ténis de mesa pela manhã e após o almoço dar um pequeno passeio pela tabanca. Às vezes até se batiam umas chapas para mandar à família e mostrar que a guerra não era aquilo que se dizia. Então não se via nas fotos?!
O pessoal da tabanca, acho que também se tinha adaptado aos nossos hábitos. As pessoas corriam em menor número à enfermaria civil e militar, e as nossas lavadeiras não entregavam roupa lavada. A população, pela manhã, assistia com respeito ao hastear da Bandeira Nacional em frente ao Posto Administrativo, cerimónia que só acontecia ao domingo. Os homens conversavam ou deambulavam pela tabanca ouvindo música ou os relatos de futebol da Metrópole, em alto som, como era hábito, naqueles portáteis enormes por vezes carregados ao ombro.
Depois de um almoço melhorado, bem regado com uma cervejinha geladinha, tomado o digestivo, normalmente um VAT 69 ou um White Horse, como era hábito lá fomos arejar o fato domingueiro.
Tínhamos aprendido na Doutrina que o domingo era dia do Senhor, dia de descanso, dia de paz e amor.
As diversas actividades quotidianas nem sempre permitiam o contacto directo com a população. Dois dedos de conversa aqui, um piropo a uma bajuda ali, por que não até uma inocente foto com algumas delas, e assim se ocupava algum tempo.
Interior do quartel de Mansabá, 28 de Novembro de 1971 - O Fur Mil Mec Auto Dias e eu
Naquele domingo, regressava o grupo já em direcção à porta de armas, ainda em plena avenida de acesso ao quartel, quem vinha de Cutia, quando rebenta um fogachal enorme.
O quartel estava a ser atacado em pleno dia, o que era extremamente raro.
Armas pesadas e ligeiras pareciam instaladas junto ao arame farpado, quando não, já do lado de dentro.
Começámos a correr o mais que podíamos em direcção aos nossos aposentos para nos armarmos e ocuparmos os nossos postos ou pura e simplesmente irmos para o abrigo mais próximo.
Lembro-me que ultrapassei a porta de armas, antecedido por uns quantos camaradas e, quando a escassos vinte metros da porta do meu quarto, situado precisamente no enfiamento da entrada do quartel, sinto um impacto violento nas costas.
Caio de bruços, curiosamente sem dores. Acho que se apaga uma luz ao mesmo tempo que sinto uma paz como nunca tinha sentido.
************
O quarto dos pesadelos
Sobressaltado, dou um pulo na cama e desperto.
Não era domingo, não era de dia, nem felizmente o quartel estava a ser assaltado.
Tento na escuridão verificar que o meu camarada Dias não se tenha apercebido do meu pesadelo. O silêncio reinava no quarto. Ainda bem.
Lá fora, na noite escura e misteriosa, alguns dos meus camaradas velavam pela nossa relativa segurança. Bem hajam.
Esperei acordado pelo romper do dia já que não mais consegui adormecer.
Carlos Vinhal,
ex-Fur Mil Art MA,
CART 2732,
Mansabá, 1970/72
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
P39 - As nossas datas (6): Em 17 de Janeiro de 1972 a CART 2732 completou 21 meses de comissão
No dia 17 de Janeiro de 1972, já lá vão 40 anos, a CART 2732 completava 21 meses de comissão no CTI da Guiné e, no dia 21, o mesmo tempo de permanência em Mansabá.
Esta localidade que fazia parte da região do Oio, a poucos quilómetros do Morés, era muito importante estrategicamente porque além de estar situada no eixo rodoviário Bissau/Mansoa/Farim, dela partia uma picada para Bissorã (a oeste) e outra para Bafatá (a leste), ambas não utilizadas regularmente. Que me lembre só uma vez a CART fez o percurso Mansabá/Bafatá, e volta, em coluna auto, e na picada para Bissorã só se transitava a pé.
O itinerário Mansoa/Farim estava alcatroado só até ao Bironque, completando-se o tapete até à margem esquerda do Rio Cacheu, em frente a Farim, no nosso tempo. Este trabalho trouxe-nos alguns dissabores como ataques sucessivos ao aquartelamento e às frentes de trabalhos, assim como operações e emboscadas muito para além do que competiria em caso de quadrícula normal.
Atendendo ao esforço a que a CART foi sujeita, foi-nos prometido algum tempo de recuperação, em zona de paz, antes do fim da comissão, promessa nunca cumprida.
Só no dia 8 de Fevereiro de 1972 foram para Bissau os primeiros dois Grupos de Combate da CART, no dia 23 os restantes dois e o Comando a 25. Efectivamente a CART permaneceu em Mansabá 22 dos 23 meses que durou a sua comissão. Um sacrifício exigido a uma Unidade esforçada e composta maioritariamente por valorosos militares oriundos da Madeira.
Em Bissau, a CART manteve alguma actividade operacional até à data do regresso, 19 de Março de 1972.
Esta localidade que fazia parte da região do Oio, a poucos quilómetros do Morés, era muito importante estrategicamente porque além de estar situada no eixo rodoviário Bissau/Mansoa/Farim, dela partia uma picada para Bissorã (a oeste) e outra para Bafatá (a leste), ambas não utilizadas regularmente. Que me lembre só uma vez a CART fez o percurso Mansabá/Bafatá, e volta, em coluna auto, e na picada para Bissorã só se transitava a pé.
Mapa com a área da Zona de Acção da CART 2732
Com a devida vénia a Luís Graça & Camaradas da Guiné
Com a devida vénia a Luís Graça & Camaradas da Guiné
O itinerário Mansoa/Farim estava alcatroado só até ao Bironque, completando-se o tapete até à margem esquerda do Rio Cacheu, em frente a Farim, no nosso tempo. Este trabalho trouxe-nos alguns dissabores como ataques sucessivos ao aquartelamento e às frentes de trabalhos, assim como operações e emboscadas muito para além do que competiria em caso de quadrícula normal.
Atendendo ao esforço a que a CART foi sujeita, foi-nos prometido algum tempo de recuperação, em zona de paz, antes do fim da comissão, promessa nunca cumprida.
Só no dia 8 de Fevereiro de 1972 foram para Bissau os primeiros dois Grupos de Combate da CART, no dia 23 os restantes dois e o Comando a 25. Efectivamente a CART permaneceu em Mansabá 22 dos 23 meses que durou a sua comissão. Um sacrifício exigido a uma Unidade esforçada e composta maioritariamente por valorosos militares oriundos da Madeira.
Em Bissau, a CART manteve alguma actividade operacional até à data do regresso, 19 de Março de 1972.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
P32 - Os fatídicos dias 5 e 6 de Outubro de 1970 e a morte do Alf Mil José Armando Couto
Após o recente contacto da neta do nosso camarada Alferes Couto, lembrei-me de reproduzir aqui parte de um texto que publiquei no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné em 18 de Julho de 2006.
Os fatídicos dias 5 e 6 de Outubro de 1970
O Aquartelamento de Mansabá tinha sido atacado na noite de 5 de Outubro. Deste ataque resultou a morte imediata de um soldado milícia e ferimentos ligeiros em alguns militares da nossa CART.
Na manhã seguinte havia que fazer o reconhecimento da zona envolvente, pois o IN esteve muito próximo e normalmente deixava pistas que, de alguma forma, serviam para recolher ensinamentos para futuros ataques. Além de tudo, por vezes, antes de retirar, o IN deixava armadilhas nos itinerários utilizados por nós e pela população.
No dia 6 estava de Piquete o 4.º pelotão, cujo Comandante era o Alferes Couto que tinha, como eu, o curso de Minas e Armadilhas. Do mesmo pelotão fazia ainda parte o Furriel Sousa, também com o curso de minas.
Por motivos óbvios toda a malta se tinha deitado muito tarde e descansado pouco, mas manhã cedo lá saiu o 4.º pelotão para o mato, reforçado com meu, o 3.º, para proceder ao dito reconhecimento.
Decorrido algum tempo após a saída dos pelotões, ouviu-se no aquartelamento um estrondo e quase de seguida, pelo rádio, ouviram-se pedidos de socorro para evacuar um morto e um ferido, vítimas do rebentamento de uma mina antipessoal num carreiro no designado Alto de Bissorã. Saíram imediatamente algumas viaturas para trazerem os sinistrados.
Quando regressaram, traziam o cadáver do Alferes Couto. O ferido era o Alferes Bento, comandante do meu pelotão, que também tinha sido atingido ao tentar socorrer o seu camarada e amigo.
O Alferes Couto era um homem com cerca de trinta anos que tinha sido incorporado com aquela idade quando era tripulante dum navio da Marinha Mercante. Não sabemos a razão de tão tardia ida para a tropa, nem vem ao caso. Sabíamos sim que ele era casado e era já pai. Muito comunicativo, pouco adaptado aos cerimoniais militares, privilegiava o convívio dos soldados do seu pelotão. Lembro-me de, durante o Curso de Minas e Armadilhas na EPE, Casal do Pote, ele passar horas a jogar matraquilhos connosco no Bar dos Praças daquela Unidade. Era um homem simples e superior ao seu estatuto de oficial.
Como operacional na Guiné, julgo que o Alf Couto já tinha neutralizado e/ou levantado algumas minas antipessoais até que chegou o fatídico dia 6 de Outubro de 1970.
As minas PMD6 utilizadas na Guiné eram traiçoeiras e por vezes difíceis de manusear. Algumas com a humidade do solo, porque eram de madeira deterioravam-se, pelo que retirar a espoleta era uma autêntica lotaria. Não se sabe exactamente o que ele pretendia fazer, só se sabe que a determinada altura chamou o Alferes Bento para lhe dar ajuda. Quando este se dirigia para ele, deu-se a explosão que ainda o atingiu.
Eu, que na altura não era operacional por estar impedido na secretaria onde colaborava, no momento em que tudo aconteceu pude acompanhar junto do rádio o desenrolar dos acontecimentos.
Depois de removido o cadáver do Alf Couto e de o Alf Bento ter recolhido à enfermaria para posteriormente ser transferido para o HM 241 [Hospital Militar de Bissau], havia que voltar ao local do incidente para continuar a neutralizar as outras minas detectadas.
Recebi então ordem do Comandante da Companhia para avançar e dar continuidade ao trabalho que ficou por acabar. Chegado ao local fatídico, estavam assinaladas duas minas antipessoais guardadas por alguns militares completamente consternados. Ao verem-me, desejaram-me as maiores felicidades.
Assim, comecei por juntar às minas detectadas uns pedaços de TNT, que iriam ser accionados por detonadores pirotécnicos alimentados por cordão lento, porque na altura ainda não dispunha de disparador eléctrico. Claro que isto exigiu que eu andasse por ali às voltas. Examinei tanto quanto pude o terreno por onde iria correr enquanto o cordão ardesse e um local para me proteger quando aquilo tudo explodisse. Pus o pessoal em bom recato, peguei fogo ao rastilho, corri e abriguei-me, esperando pela detonação. Quando esta aconteceu, fui ao local ver o resultado e reparei que, em vez de duas crateras correspondentes às duas minas detectadas, tinha três. Na realidade não havia duas, mas sim três minas, sendo que a terceira não tinha sido detectada e eu não a pisei por mero acaso e sorte. Esta rebentou com as outras por simpatia.
Missão cumprida e retorno ao quartel onde o constrangimento era geral. Ainda estava fresco o cadáver dum camarada, que não veria crescer os filhos deixados em casa aos cuidados da mãe, há apenas seis meses. Tinha acontecido a nossa primeira baixa.
A partir desta data fiquei com a responsabilidade das actividades relacionadas com as Minas na Companhia, porque o alferes substituto do camarada Couto não tinha o Curso de Minas e Armadilhas. Fiz algumas patrulhas em que o meu Pelotão não tomava parte, porque desde que o 1.º ou o 2.º Pelotões fossem passar em zonas minadas ou armadilhadas por nós, era exigida a minha presença ou a do Sousa, meu camarada especialista em Minas e Armadilhas que integrava o 4.º Pelotão.
Os fatídicos dias 5 e 6 de Outubro de 1970
O Aquartelamento de Mansabá tinha sido atacado na noite de 5 de Outubro. Deste ataque resultou a morte imediata de um soldado milícia e ferimentos ligeiros em alguns militares da nossa CART.
Na manhã seguinte havia que fazer o reconhecimento da zona envolvente, pois o IN esteve muito próximo e normalmente deixava pistas que, de alguma forma, serviam para recolher ensinamentos para futuros ataques. Além de tudo, por vezes, antes de retirar, o IN deixava armadilhas nos itinerários utilizados por nós e pela população.
No dia 6 estava de Piquete o 4.º pelotão, cujo Comandante era o Alferes Couto que tinha, como eu, o curso de Minas e Armadilhas. Do mesmo pelotão fazia ainda parte o Furriel Sousa, também com o curso de minas.
Por motivos óbvios toda a malta se tinha deitado muito tarde e descansado pouco, mas manhã cedo lá saiu o 4.º pelotão para o mato, reforçado com meu, o 3.º, para proceder ao dito reconhecimento.
Decorrido algum tempo após a saída dos pelotões, ouviu-se no aquartelamento um estrondo e quase de seguida, pelo rádio, ouviram-se pedidos de socorro para evacuar um morto e um ferido, vítimas do rebentamento de uma mina antipessoal num carreiro no designado Alto de Bissorã. Saíram imediatamente algumas viaturas para trazerem os sinistrados.
Quando regressaram, traziam o cadáver do Alferes Couto. O ferido era o Alferes Bento, comandante do meu pelotão, que também tinha sido atingido ao tentar socorrer o seu camarada e amigo.
O Alferes Couto era um homem com cerca de trinta anos que tinha sido incorporado com aquela idade quando era tripulante dum navio da Marinha Mercante. Não sabemos a razão de tão tardia ida para a tropa, nem vem ao caso. Sabíamos sim que ele era casado e era já pai. Muito comunicativo, pouco adaptado aos cerimoniais militares, privilegiava o convívio dos soldados do seu pelotão. Lembro-me de, durante o Curso de Minas e Armadilhas na EPE, Casal do Pote, ele passar horas a jogar matraquilhos connosco no Bar dos Praças daquela Unidade. Era um homem simples e superior ao seu estatuto de oficial.
Como operacional na Guiné, julgo que o Alf Couto já tinha neutralizado e/ou levantado algumas minas antipessoais até que chegou o fatídico dia 6 de Outubro de 1970.
As minas PMD6 utilizadas na Guiné eram traiçoeiras e por vezes difíceis de manusear. Algumas com a humidade do solo, porque eram de madeira deterioravam-se, pelo que retirar a espoleta era uma autêntica lotaria. Não se sabe exactamente o que ele pretendia fazer, só se sabe que a determinada altura chamou o Alferes Bento para lhe dar ajuda. Quando este se dirigia para ele, deu-se a explosão que ainda o atingiu.
Eu, que na altura não era operacional por estar impedido na secretaria onde colaborava, no momento em que tudo aconteceu pude acompanhar junto do rádio o desenrolar dos acontecimentos.
Depois de removido o cadáver do Alf Couto e de o Alf Bento ter recolhido à enfermaria para posteriormente ser transferido para o HM 241 [Hospital Militar de Bissau], havia que voltar ao local do incidente para continuar a neutralizar as outras minas detectadas.
Recebi então ordem do Comandante da Companhia para avançar e dar continuidade ao trabalho que ficou por acabar. Chegado ao local fatídico, estavam assinaladas duas minas antipessoais guardadas por alguns militares completamente consternados. Ao verem-me, desejaram-me as maiores felicidades.
Assim, comecei por juntar às minas detectadas uns pedaços de TNT, que iriam ser accionados por detonadores pirotécnicos alimentados por cordão lento, porque na altura ainda não dispunha de disparador eléctrico. Claro que isto exigiu que eu andasse por ali às voltas. Examinei tanto quanto pude o terreno por onde iria correr enquanto o cordão ardesse e um local para me proteger quando aquilo tudo explodisse. Pus o pessoal em bom recato, peguei fogo ao rastilho, corri e abriguei-me, esperando pela detonação. Quando esta aconteceu, fui ao local ver o resultado e reparei que, em vez de duas crateras correspondentes às duas minas detectadas, tinha três. Na realidade não havia duas, mas sim três minas, sendo que a terceira não tinha sido detectada e eu não a pisei por mero acaso e sorte. Esta rebentou com as outras por simpatia.
Missão cumprida e retorno ao quartel onde o constrangimento era geral. Ainda estava fresco o cadáver dum camarada, que não veria crescer os filhos deixados em casa aos cuidados da mãe, há apenas seis meses. Tinha acontecido a nossa primeira baixa.
A partir desta data fiquei com a responsabilidade das actividades relacionadas com as Minas na Companhia, porque o alferes substituto do camarada Couto não tinha o Curso de Minas e Armadilhas. Fiz algumas patrulhas em que o meu Pelotão não tomava parte, porque desde que o 1.º ou o 2.º Pelotões fossem passar em zonas minadas ou armadilhadas por nós, era exigida a minha presença ou a do Sousa, meu camarada especialista em Minas e Armadilhas que integrava o 4.º Pelotão.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
P10 - FOTOGALERIA DA CART 2732 (1) - Álbum fotográfico de Carlos Vinhal, ex-Fur Mil do 3.º Pelotão
O quartel da Bateria de Artilharia de Guarnição N.º 2, sito em S. Martinho, Funchal, visto do Pico dos Barcelos
Funchal - BAG 2 - 07ABR70 - Os Cabos Mil Nunes, Vinhal e Correia junto ao Memorial erigido para lembrar as Companhias mobilizadas pelo GAG 2 com destino à Guerra Colonial
Cais do Funchal - 13ABR70 - A CART 2732, comandada pelo Alf Mil Manuel Casal, desfila perante as autoridades civis e miliatres, momentos antes de embarcar no navio Ana Mafalda, com destino à Guiné. O Estandarte da Companhia é transportado pelo 2.º Sargento Santos.
Alf Mil José Armando Santos do Couto, vítima mortal da explosão de uma mina AP no dia 06OUT1970.
Foto gentilmente cedida pela família
Mansabá, 11ABR70 - 3.º Pelotão da CART 2732, comandado pelo Fur Mil Nunes, em desfile no dia de homenagem à memória do Alf Mil Couto, morto, vítima do rebentamento de uma mina AP em 06OUT70
Mansabá 11OUT70 - Cerimónia de homenagem à memória do Alf Mil José Armando Santos do Couto, vítima de uma mina AP em 06OUT70
Mansabá, 11OUT70 - O 3.º Pelotão da CART 2732, comandado pelo Fur Mil Nunes
Mansabá 11OUT70 - 3.ª Secção do 3.º Pelotão da CART 2732 - De pé: Soldados Silva, Diogo, Marques, Vasconcelos, Camacho e Pinto. Em baixo: 1.º Cabo Ornelas e Fur Mil Vinhal
Mansabá 11OUT70 - Fur Mil Nunes, Sold Barbosa (que viria a falecer em DEZ1971 vítima de ferimentos recebidos em combate) e Fur Mil Vinhal
Nesta foto está presente o Cap Mil Jorge Picado que comandou a CART 2732 de Fevereiro a Abril de 1971. À sua direita está o Alf Mil Médico Rolando.
Caserna dos Praças, atingida por munição IN durante o ataque ao aquartelamento de 12NOV70
Enfermaria militar atingida por munição de canhão s/recuo durante o ataque ao aquartelamento de 12NOV70, a que se seguiu um incêndio
Enfermaria militar atingida por munição de canhão s/recuo durante o ataque ao aquartelamento de 12NOV70, a que se seguiu um incêndio
Abrigo da Mancarra atingido por munição IN durante o ataque a Mansabá de 12NOV70
Uma das muitas moranças da população atingidas por munições IN durante o ataque a Mansabá de 12NOV70
Presença do Gen António de Spínola em Mansabá, num dos dias seguintes ao ataque de 12NOV70
Viatura Berliet da CART 2732, danificada por fogo IN na emboscada de 02DEZ71 na região de Madina Fula
Bironque - 03DEZ71 - Especialistas de Minas e Armadilhas da CART 2732 procedem à neutralização de uma mina AC
Viatura Unimog da CART 2732, destruída pelo fogo IN na emboscada de 06DEZ71 na zona de Mamboncó, na Estrada Mansoa/Mansabá
Viatura Unimog da CART 2732, destruída pelo fogo IN na emboscada de 06DEZ71 na zona de Mamboncó, na Estrada Mansoa/Mansabá
Elementos da CART 2732 durante uma Operação. Na foto destacam-se: Alf Mil Op Esp Rodrigues, Fur Mil Com Mendonça, Alf Mil Casal, Fur Mil Enf Marques, Fur Mil Correia e Fur Mil Fonseca
Mansabá - Guarnição do Abrigo da Mancarra, comandada pelos Cabos Inácio, apontador da metralhadora Breda e Ornelas, apontador de morteiro 60mm__________
Notas:
Fotos editadas e postadas por Carlos Vinhal
Fotos: © Carlos Vinhal; Gabriel Dias; Inácio Silva; Jorge Picado; José Manuel Mendonça; Luís Pires; Raul Albino (2009). Direitos reservados
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